sexta-feira, 30 de julho de 2010

MONTE SANTO E A GUERRA DE CANUDOS

São muitas as informações sobre a presença de Antônio Conselheiro em Monte Santo. Em 1888, o coronel Durval Vieira de Aguiar, no seu livro Descrições Práticas da Província da Bahia, informava ter visto o beato em terras de Monte Santo, mais precisamente no povoado do cumbe, atual Euclides da Cunha. Anos mais tarde (1892), o Conselheiro se encontrava de novo em Monte Santo, desta feita na sede da vila, onde juntamente com seu séquito realizou alguns reparos no caminho da Santa Cruz. É o que informa o correspondente do jornal Diário de Notícias da Bahia, edição de 7 de junho de 1893: “Fui testemunha ocular de que quando aqui esteve o ano passado, enviou meios de fazer-se alguns reparos nas capelinhas e na estrada do Monte, daqui, a fim de não continuar na decadência em que se achava a instituição da irmandade dos Santos Passos do Senhor do Calvário, pedindo e aplicando o resultado das esmolas que recebeu para esse fim”. No período da guerra, a partir da 2ª expedição, a cidade serviu de base de operação das tropas legais, em demanda de Canudos. Ali se instalou o quartel general do ministro da guerra, Marechal Carlos Machado Bittencourt o qual comandou o serviço de intendência e cuja presença no palco das operações foi determinante para a vitória das forças do Exército. Para facilitar a comunicação dos expedicionários com os grandes centros urbanos do país, principalmente com a Capital da República, a cidade foi dotada de serviço telegráfico.

José Gonçalves do Nascimento
Senhor do Bonfim - Bahia

MASSETÉ E A GUERRA DE CANUDOS



Masseté, pequena localidade do município de Quijingue, ocupa lugar privilegiado no âmbito da geografia da guerra de Canudos. Foi ali que em maio de 1893 se deu o primeiro confronto entre forças legais e os seguidores de Antonio Conselheiro. A partir desse episódio o pregador se deu conta da necessidade de se sedentarizar, pondo fim a quase duas décadas de peregrinação. É por isso que Masseté é apontado como divisor de águas, como ponto de chegada e de partida da experiência mística de Antônio Conselheiro. Neste sentido, a trajetória do fundador de Canudos se partiria em dois momentos: o momento anterior a Masseté, em que tiveram lugar as peregrinações e, ao lado delas, as construções de igrejas, cemitérios, aguadas, etc., e o momento posterior a Masseté em que se deu a fixação do grupo conselheirista, resultando na povoação do arraial de Canudos.


José Gonçalves do Nascimento
Senhor do Bonfim - Bahia

segunda-feira, 19 de julho de 2010

100 ANOS DA COMUNIDADE DO CAZUMBA (PARTE 1)

NO COMEÇO

Tudo começou com um casal de viúvos. Carlos Cardoso de Barros e Thereza Maria de Jesus chegaram à fazenda Urubu, em terras da então Villa Nova da Rainha, e ali fixaram moradia. Algum tempo depois os dois se casaram e tiveram filhos. Eles vieram de Porteiras, região do Cariri, próximo a Juazeiro do Norte, no Ceará. Saíram de lá, provavelmente, tangidos pela terrível seca que assolou aquele estado no período de 1877 a 1879.

A SECA DE 1877-79


Tida como a pior estiagem da história do Nordeste, a seca de 77-79, dizimou quase metade da população cearense. Dos 800 mil habitantes existentes na época, 300 mil morreram de fome e sede, ou emigraram para outros estados do Brasil, inclusive a Bahia. Contrariando a política oficial, que garantia a cada brasileiro o direito de receber socorro em situação de calamidade, o Império atuou em duas frentes distintas: uma foi a utilização dos flagelados em obras públicas e particulares, e a outra, a dispersão desses mesmos flagelados, enxotando-os para outras regiões do Brasil.

A PRESENÇA DOS CEARENSES EM SENHOR DO BONFIM

Entre as levas de cearenses transmigrados para a Bahia e aportados em Villa Nova da Rainha, estão os irmãos Vilanova (Antônio e Honório Francisco Assunção), personagens célebres da história de Canudos e Antonio Conselhiro. Estabelecidos na comunidade canudense, após algum tempo residindo na então futura Terra do Bom Começo, os irmãos Vilanova se tornariam detentores do maior estabelecimento comercial do arraial de Canudos. Isso lhes conferiu prestígio e os fez participar do grupo das pessoas mais influentes do séquito conselheirista. Antes de findar a guerra e com o consentimento de Antônio Conselheiro, os dois voltariam para o Ceará, levando família e fortuna.

OS PIONEIROS


José Carlos Cardoso, carpinteiro de ofício, filho de Carlos Cardoso de Barros e Thereza Maria de Jesus, casou-se em 1910, com Maria Virgínia de Jesus, natural da Missão do Sahy, indo morar na fazenda Serraria e tornando-se desta o pioneiro. O nome, segundo a gente do lugar estaria relacionado à profissão do seu primeiro morador. Com o passar do tempo a antiga fazenda Serraria desdobrou-se em três: Serraria do Carlos, Serraria do Bento da Passagem Velha e Serraria de Joaquim Timóteo. Anos mais tarde as três voltariam a se fundir, resultando no que é hoje a comunidade do Cazumba.

O nome Cazumba, de fato, surgiu muito tempo depois. Para dona Rosa Maria Carlos, de 90 anos, filha dos primeiros desbravadores do lugar, o topônimo se deveu ao fato das pessoas associarem a fazenda Serraria a uma outra fazenda, mais adiante, denominada Cazumba, hoje batizada por Sanharó. Já para Nelson Neves, de 70 anos, sobrinho do carpinteiro, o nome Cazumba tem a ver com uma carcaça de animal, provavelmente de gado vacum, que ficava na beira da estrada, próximo à fazenda Serraria.

O SIGNIFICADO DA PALAVRA CAZUMBA...

Para o antropólogo Raul Geovanni da Mota Lody, responsável por vários estudos na área das religiões afro-brasileiras, o termo cazumba ou cazumbá descende do grupo etimológico Cazumbi, Zumbi, Nzumbi, originário do Kibundo Nzumbi, macrogrupo etnolingüístico Bantu. Trata-se de uma entidade espiritual “que se supõe estar pelo mundo participando com os vivos”. Algo como um espírito animal, “remetendo aos rituais dos caçadores na floresta”. Ou “uma fusão dos espíritos dos homens e dos animais”. “É ser eminentemente fantástico, misterioso...”. (LODY, Raul. Dicionário de Arte Sacra e Técnicas Afro-brasileiras, Pallas Editora, Rio de Janeiro, 2003, p. 228).

Cazumba seria uma figura entre homem e animal, sem ser nem um, nem outro. Ou entre macho e fêmea, sem assumir nenhuma das duas condições. O sentido da palavra estaria relacionado também a duende ou fantasma que, segundo a crença popular afro-brasileira vagueia pela noite, fazendo encantamento e aprontando travessuras.

O estudioso Nei Braz Lopes, autor de trabalhos voltados para as questões da África, indica ser o “cazumba uma máscara de procedência africana encontrada em alguns autos populares” do Brasil. (LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, Selo Negro, São Paulo, 2004, p. 180).

Com efeito, é no bumba-meu-boi do Maranhão que vamos encontrar essa figura extraordinária. A pesquisadora Juliana Bittencourt Manhães, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que acompanhou de perto esse ritual, tendo, inclusive, convivido com pessoas que dele fazem parte, nos traz informações valiosíssimas quanto à presença do cazumba naquele segmento da cultura popular maranhense. “O cazumba – diz ela - é um personagem dos bois da região da baixada, território com campos baixos, que alagam na estação das chuvas (...). São bois com um ritmo cadenciado, a presença do badalo, pandeirões menores ou caixas, enormes chapéus bordados com penas de ema e a presença do cazumba. É uma figura mascarada, sua indumentária é chamada de bata ou farda, um vestidão cheio de bordados e coloridos com um cofo de palha usado na cintura, trazendo uma figura grotesca, com uma bunda enorme que balança. Na mão segura um badalo, tipo sino de boi, avisando que o bando de cazumbas está chegando”.(http://www.portalabrace.org/vcongresso/texto/estudosperformance >Acesso em: 04-08-2010).

... E COMO ISSO CHEGOU ATÉ AQUI?


O que teria a ver o nosso Cazumba com o personagem afro-brasileiro dos folguedos do Maranhão? Haveria alguma aproximação entre o boi do folclore maranhense e o boi da carcaça que batizou a belíssima comunidade do interior bonfinense? De que maneira teria se dado uma tal aproximação? Talvez, uma das respostas a este questionamento esteja no fato da então fazenda Serraria ser cortada por estrada tropeira, por onde transitavam pessoas de grande parte do Nordeste. De qualquer forma a questão continua em aberto, a espera de estudo mais aprofundado.

José Gonçalves do Nascimento
(Presidente da Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim (ACLASB).
e-mail: jgoncalvesnascimento@hotmail.com

quinta-feira, 3 de junho de 2010

OS ÚLTIMOS MOMENTOS DE CANUDOS

Por José Gonçalves do Nascimento

Entre 1893 e 1897, poucos anos após a proclamação da República, a Bahia se apresentava como cenário de um dos mais extraordinários exemplos de mobilização popular que a história brasileira já registrou: o arraial de Canudos ou Belo Monte. Edificado por Antônio Conselheiro e seus seguidores, Canudos representou o anseio de liberdade que, há séculos, era alimentado pelos pobres do Nordeste. Ali, os sertanejos puderam, finalmente, adquirir sua tão sonhada autonomia. Livres do domínio dos coronéis e conduzidos pelos ideais de uma vida nova, eles foram responsáveis pela construção de um modelo alternativo de sociedade, onde teve lugar a prática da partilha e da solidariedade. Em pouco tempo, o arraial sertanejo se transformou num dos maiores aglomerados populacionais da Bahia, chamando a atenção do país e tornando-se, como alegava o barão de Jeremoabo, “a questão do dia que preocupa todos os espíritos lúcidos” do Brasil. Completamente insubmissa aos ditames do regime republicano, que acabava de se instalar no país, a comunidade de Canudos acabou despertando a ira das elites brasileiras, as quais resolveram apelar para o ataque. Era a Guerra de Canudos.

Em novembro de 1896, o governo republicano, apoiado pelos latifundiários e pela cúpula da Igreja Católica, declara guerra à “aldeia sagrada” dos sertanejos. Para exterminar Canudos, o Estado Brasileiro mandou ao sertão da Bahia nada menos que quatro expedições militares, totalizando um contingente de mais de 12 mil homens em armas - mais da metade do efetivo do Exército naquele momento. A capacidade bélica dos sertanejos, inicialmente subestimada, surpreendeu os inimigos. A cada batalha travada, as forças legais sofriam novas baixas e o poder de fogo dos canudenses saía fortalecido. As três primeiras expedições, que juntas totalizavam mais de 2 mil homens, foram esmagadas fragorosamente. As sucessivas derrotas puseram em pânico o Governo da República, que passou a ver em Canudos um perigo cada vez mais real e assustador. Impunha-se, portanto, que se tomassem medidas mais enérgicas. Afinal de contas – acreditava-se – era o destino da República que se encontrava em jogo. O Governo não tardou e uma nova expedição foi mandada às terras sertanejas, dessa feita, com mais de 10 mil soldados. As elites, então, puderam respirar aliviadas. Canudos, finalmente, estava liquidado. No conflito, morreram cinco mil soldados e todos os habitantes do burgo conselheirista.
No dia 5 de outubro de 1897, se deram os combates derradeiros. Era o desfecho de quase um ano de luta renhida, em que brasileiros guerrearam contra brasileiros. A seguir, os últimos lances dessa epopéia, na visão de testemunhas oculares.

"Canudos não se rendeu. Exemplo unico em toda a historia, resistiu até ao exgottamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, cahiu no dia 5, ao entardecer, quando cahiram os seus ultimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dous homens feitos e uma creança, na frente dos quaes rugiam raivosamente 5 mil soldados”

Euclides da Cunha [Os Sertões] correspondente do Jornal O Estado de São Paulo em Canudos, 1897)


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“Ao clarear do dia 5, já pouco movimento se observava no centro inimigo; o fogo era fraquissimo e, nem mesmo mulheres se viam mais. Os soldados, impacientes, foram pouco a pouco se introduzindo nas ruinas dos fanaticos e, dahi a momentos, tinham varejado casa por casa, cujas paredes ainda se mantinham de pé, examinado vallas, subterraneos e tudo quanto havia de mysterioso ali. Os ultimos atiradores que encontraram ainda, de armas na mão, nervosos, alucinados, fazendo fogo sobre elles, morreram nessa occasião e sepultaram-se na mesma valla em que foram encontrados. Eram quatro: um velho, ferido na perna direita, um rapaz de 18 annos presumiveis e dois outros homens vigorosos. Estava tudo acabado (...) Difficilmente se descrevem quadros como os que se desdobram diante de nós! Quasi todas as casas tinham ardido inteiramente, o chão dir-se-ia tapetado de negro e cinza e, por toda parte, montões de cadaveres carbonisados, horrendos, nas ultimas posições dos musculos contraidos! As vallas que os desgraçados abriam para se occultar e donde nos alvejavam com a maior certeza, estavam repletas de cadaveres. Ahi morriam e ahi se depositavam. Os ultimos pouco se inquitavam com os que jaziam nesse estreito espaço rectangular, onde em breve estariam tambem sepultados. A maior parte dos corpos de crianças, tambem carbonisados, encontravam-se extremamente conchegados aos de adultos, cujo sexo feminino ainda se reconhecia (...) tudo, enfim, se tinha acabado ali. O exterminio absoluto do contendor suplantado - tal foi a conclusão dessa luta de horrores!"

(Emídio Dantas Barreto [Destruição de Canudos], oficial do Exército, integrante da 4ª expedição contra Canudos, 1897)


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“Quando ao amanhecer do dia 5 soldados invadiram francamente o recinto onde tão singulares cenas eram passadas, o fogo de fuzil cessara de todo. Findara a resistência por falta de atiradores entre o inimigo e o incêndio também completara a sua obra, só restando pequenas fogueiras e espirais de fumaça, surgindo entre os escombros das habitações. Poucas casas escaparam ao fogo, mais em ruínas, devido à metralha.
No entanto, na trincheira, no centro do reduto, permaneciam 4 fanáticos sobreviventes do extermínio.
Esses haviam terminantemente recusado entregarem-se à intimação dos soldados e fizeram fogo. Eram: um velho, coxo por ferimento e usando uniforme da Guarda Católica; um rapaz de 16 a 18 anos, um preto alto magro e um caboclo.
Ao serem intimados para deporem as armas, investiram com enorme fúria. O preto, empunhando um machado, descarregava sendos golpes. Num momento eram cadáveres, ficando entre os muitos apodrecidos no mesmo local. Assim, estava terminada e de maneira tão singularmente trágica a sanguinosa guerra...”.

(Henrique Duque Estrada de Macedo Soares, [A Guerra de Canudos] oficial do Exército, integrante da 4ª expedição contra Canudos, 1897)


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"A 5 de outubro, depois de uma resistência louca, digna de melhor causa, o inimigo sitiado pela sede que nele se fazia sentir horrivelmente, pela fome, pelo incêndio e pelas balas, entregou-se de vez, ou antes deixou se fazer ouvir pelo estampido dos seus bacamartes e detonação de suas armas, porquanto tinham perecido na luta todos os seus homens válidos, e quando as nossas forças penetraram no seu último esconderijo, ali se encontravam montão de cadáveres de homens, mulheres e crianças, que foi avaliado em número superior a oitocentos! O batalhão do Amazonas, tanto ou mais que nem outro, concorreu brilhantemente para o êxito final, batendo-se abnegada e heroicamente sem visar interesse de ordem alguma, e auxiliando por todos os modos o General-em-Chefe a debelar tão nefanda quanto desgraçada revolta”.

(Cândido José Mariano, [A Força Pública do Amazonas em Canudos] atuou contra Canudos, como comandante de um corpo da Polícia Militar do Amazonas, 1897)


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“No dia 5 uma fulgurante aurora rompe n’aquella zona, que em tudo quer provar de quanto é capaz a magnificencia de nossa natureza.

Não viam-se mais aquellas densas nuvens de neblina, que quotidianamente circundavam os montes situados em derredor, occultando o regio astro nem ouvia-se o canto insupportavel do fuzil, mas apparecia illuminada a fimbria do horisonte, como que a indicar-nos a alviçareira nova que havia de surgir e feria-nos os ouvidos o canto mavioso do cardeal, que em abundancia lá existia; avistavam-se os montes, tendo coroados os seus cumes de linda neve como se fôra o symbolo argenteo da paz e do progresso.
A anciedade era geral: queriamos que se désse o desenlace ha tanto esperado, ainda mesmo que fosse coroado pelo infortunio, impossivel quasi n’essa occasião.
Estavam no acampamento mais de 800 jagunços e todos eram unanimes em dizer que já não existia o Conselheiro. Estavamos, eu e os companheiros de visita ao reducto, a conversar com o illustre Major Frederico Mára, junto a egreja nova, quando ao laborar o fogo pelo resto das casas, apenas foram vistos 3 homens. Então a tropa começou a entrar pelas demais ruas, vendo-se mulheres que, ao inquirir-se lhes se queriam agua, pois já fallavam mal, respondiam-nos que preferiam a morte.
Circulou, então, com relance do raio a noticia sublime de – Victoria! Victoria!

Alvim Martins Horcades [Descrição de Uma Viagem a Canudos], estudante de medicina, integrou o corpo médico destinado a Canudos, 1897)

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“Estava marcado que Canudos seria arrasado neste dia...
O clarim deu sinal de degola e a tropa invadiu, por todos os lados, todo o arraial.
Fizeram mão rasa nos habitantes; a idade, o sexo, a cor, as condições fisiológicas dos que foram encontrados neste hediondo dia, em Canudos, não foram respeitados.
As roças foram incendiadas, as casa derruídas com os jagunços dentro.
O perfume podre dos cadáveres insepultos, que alastravam o arraial há dias, fora abafado pelo cheiro de carne assada que tresandava das fogueiras.
Mortos os maridos, a lei dos católicos não foi menos cruel do que a dos filhos de Brama para as viúvas.
Era preciso queimá-las e queimaram-nas.
O castigo era pouco e era mister um exemplo pomposo e feroz, que o tzar da Rússia e Torquemada nunca deram. Respeitaram estes, nas vítimas de sua perseguição, as que se achavam grávidas.
Em Canudos, os ventres em gestação, como caldeiras humanas, aqueceram-se, ebuliram-se e se não estouraram foi devido ao fogo já ter abrasado as paredes das comportas onde jaziam embriões e fetos que o fogo ia incinerar.
De mais se houve brados de socorro e misericórdia, a voz do incêndio e o estrondo do bombardeio abafaram!”.

(Manoel Benício [O Rei dos Jagunços], correspondente do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, em Canudos, 1897).


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“Afinal os canhões calaram-se e, dos flancos,
Da cidade sitiada, em rispidos arrancos,
Os soldados então desceram, suspendendo
As baionetas de aço, e foram envolvendo
O adversário infeliz num circulo de lanças,
Cada vez mais estreito. Os velhos e as crianças,
Não podendo correr, morriam transpassadas
Pelas armas. E sempre em ordem e animadas,
Seguiam para adiante as forças legaes, cheias
De intrepidez, com o sangue a referver nas veias...

(...)

Logo após se viu o mais terrivel
Quadro: Velhos de olhar horrifico e severo,
Jogavam-se no fogo; homens com desespero,
Lançavam-se tambem por entre as brazas quentes,
Crispando as mãos, olhando o céo, rangendo os dentes.
Com as carnes a chiar incendiada pelo
Fogo que lhes torrava os olhos e o cabello...
As mães, sentindo na alma impetuosas flammas,
Com os filhinhos no collo, atiravam-se ás chammas...
Era um drama de dor aquelle atroz martyrio,
Como um sonho horroroso em noites de delírio!

(...)

O combate acabou, quando na immensidade
A lua appareceu, triste como a orphandade”.

(...)

“ A cidade está desfeita em brasas...
Uma, e outra depois, foram cahindo as casas...
As chammas infernaes, brutas e malfazejas,
Incendiaram já as rusticas igrejas,
Cujas torres – que horror! – outr’ora tão queridas
E tão perto do céo, não foram destruidas
Pelo incendio brutal, porque antes os soldados
As tinham derruido a tiros continuados
De canhão... Felizmente as duas altaneiras
Torres, que eram tambem horrificas trincheiras,
Não viram este quadro...”.


(Francisco Mangabeira [Tragédia Épica] estudante de medicina, integrou o corpo médico destinado a Canudos, 1897)

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“Não se pode dar um passo sem se tropeçar em uma perna, um braço, um crânio, um corpo inteiro, outro mutilado, um monte de cadáveres, aqui meio queimado, outro ali ainda fumaçando, outro adiante completamente putrefato, disforme, e ao meio de tudo o incêndio e uma atmosfera cálida e impregnada de miasmas pútridos. Por toda parte o cheiro horripilante de carne humana assada nos braseiros das casas incendiadas, 5.200 casas em labaredas!
Já não se ouvem as lamentações das mulheres e das crianças, nem as ameaças canalhas dos bandidos. A morte pela fome, pela sede, pela bala, e pelo incêndio, emudeceu a todos, substituindo as lamúrias do banditismo, pelos alegres sons dos hinos de vitória!
Canudos não existe mais!
Para a nossa infelicidade, basta a sua eterna memória, que mais parece um pesadelo.
Enfim, está acabado.
Na manhã de 5, tendo cessado o fogo às 5 e 50 minutos, a jagunçada começou a fazer entrega de mulheres e crianças, em número superior a cem, algumas feridas, mais ou menos gravemente, porém todas famintas, sedentas, esquálidas, verdadeiras múmias ambulantes, caminhando com dificuldade...
Os soldados lançavam lenha sobre as fogueiras, o Tenente Dourado lançava dinamite e em poucos minutos todo o recinto sitiado era um vasto incêndio, mal se ouvindo as agonias das vítimas do fanatismo.
E o incêndio lavrava desesperado e violento, devorando com suas labaredas, casas, homens, mulheres e crianças, nada poupando, nada respeitando. O fétido nauseabundo da carne humana em cremação, era insuportável para quem estava, como nós, a 20 metros de distância.
Canudos era uma vasta fogueira! As ruas estavam tapetadas por milhares de cadáveres!...
Uma mulher atirou-se às chamas com uma criança ao colo, outra estava morta na rua com uma criança colada aos mirrados peitos; muitos jagunços morreram queimados, dando vivas à Monarquia e ao Bom Jesus Conselheiro, recusando peremptoriamente darem vivas à República.
Nunca se viu uma campanha como esta, em que ambas as partes sustentaram ferozmente as suas aspirações opostas”.

(Fávila Nunes, correspondente do jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, em Canudos, 1897)
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“No comboio de 5 chegou grande quantidade de querosene, que foi atirado às casas que restavam e aos fojos em que o inimigo se entrincheirava.
O incêndio aí tomou proporções infernais. Por entre as chamas queimavam-se madeiramento e corpos humanos; havia muita coisa de imensamente sinistro e os fanáticos, podendo fugir a essas línguas de fogo que se levantavam indômitas, atiravam-se a elas até com crianças, quando podiam render-se! Render-se...”


(Lelis Piedade, correspondente do Jornal de Notícias, de Salvador, em Canudos, 1897)

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“Em enorme buraco os nossos homens atearam grande fogueira. De dentro dolorosamente começaram a gritar: - Pelo amor de Deus, por Nossa Senhora, pela Virgem Maria, apaguem esse fogo que nos entregamos!
Corremos então à praça de Canudos. Percorrendo as ruas da cidade tive ocasião de observar o quanto se acha ela devastada, parecendo impossível que as suas casas ainda possam servir aos habitantes. Em alguns pontos vi enormes fogueiras, cujo principal combustível eram os corpos dos revoltosos, alguns dos quais ainda se acham insepultos dentro dos infectos pardieiros.
Voltando até a tarde assisti a um espetáculo inenarrável. Grupos e mais grupos de mulheres e crianças, a maior parte apresentando feridas gravíssimas, vinham de Canudos para o local em que estávamos, cobertos de imundície, nus, desfalecidos pela fome e pela sede.
À tarde, calculei em 400 pessoas quando as vi reunidas dentro do quadrado formado por praças do 1° batalhão de polícia do Pará e do 12° do Exército. No espaço misturavam-se tristemente gritos de dor, pedidos de um pouco d’água ou de um pedaço de carne”.

(Alfredo Silva, correspondente do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro, em Canudos, 1897)

sábado, 29 de maio de 2010

PAULO MACHADO LANÇA "PÁGINAS BONFINENSES" NO CONTEXTO DA CIDADE

Sob o cerco presencial de figuras do mundo acadêmico, literário, artístico, midiático, da Filarmônica União dos Ferroviários Bonfinenses e monólogo teatral, o prefeito Paulo Machado lançou às 18 horas desta quinta-feira (27) no pátio interno do arqui-histórico prédio da Prefeitura Municipal, a coletânea de crônicas “Páginas Bonfinenses”. Trata-se do 11° livro do autor.
Semelhantemente à linguagem das 20 crônicas desta obra de 66 páginas, o breve discurso de Paulo Machado foi rico de informalidade, cheio de humor e de singulares expressões de sentimento. Às 21 horas, autografava o enésimo exemplar de “Páginas Bonfinenses”. O advogado Antonio Campos, engenheiro Pedro Deraldo, Frei Monteiro, Tito Rocha, Verbênia Tércia, Amenair e dezenas de concorrentes já estavam contemplados com a dedicatória. Quando lhe foi perguntado “O que é este livro?”, ele nem meditou: “É um filho. O mais novo. Por isso merece esse carinho todo especial, esse afago em relação a Páginas Bonfinenses, que na verdade vem completar toda uma experiência de espírito e reflexão em torno da vida da minha cidade querida de Senhor do Bonfim”.
O microfone se afastou do autor e ele continuou abraçado ao que já lhe é clássico, autografar produtos de sua elaboração intelectual. Desta feita ele selecionou crônicas “de raro valor histórico e elevada beleza literária” – como assinala o Prefácio de José Gonçalves do Nascimento, presidente da Academia de Ciências e Letras de Senhor do Bonfim. Porém, uma de suas rotinas é pesquisar, escrever, organizar, publicar – prosas, poesias, artigos, crônicas, ensaios, monografias, dissertações, teses. Estilos, gêneros e temas são interpenetrados pela abrangência de conhecimento do teólogo, filósofo, educador, eterno estudante e finalmente prefeito Paulo Batista Machado.
Significados – Lucas Emanuel Sousa Muricy, 15 anos, 1° ano do ensino médio: “Um incentivo, a internet desvia nós jovens de dos bons livros. Vim buscar o livro do mestre Paulo pra ler”. Eurídice de Carvalho Melo Pita, advogada, poetisa e membro da Academia de Artes e Letras de Senhor do Bonfim “São crônicas exprimidas de maneira ímpar por um mestre da produção literária”. Camila Maria Libório Machado, advogada, escritora e filha do autor. “As crônicas nos leva a refletir sobre o papel que temos a desempenhar no cotidiano; se bem observarmos, elas nos dão a responsabilidade de contribuir para a sociedade como um todo.
Conteúdo – Estivera algum dia o temido Obama Bin Laden escondido em Senhor do Bonfim trazendo pânico à orgulhosa cidade? Achara ele que as minitorres gêmeas do nosso monumento na entrada principal da cidade seria ousada miniatura do World Trade Center “avionado” em Lower Manhattan, Nova Iorque? Ou queria destruir a relíquia cultural e até “o sabor de coisas idas e perdidas” do Beco do Bazar? Aprontaria então algo contra a terra que deu à Pro Zenaura aquele “olhar doce, suave e carinhoso”? E a visão do autor sobre a Copa do Mundo de 1970? (O que pensa dela agora o flamenguista? Não, isso não está nas crônicas). As crônicas nos levam a lugares, figuras, fatos e sensações verdadeiramente recuperadoras da história da terrinha. Viajam para aléns não ficcionais. Tiram o pé prá fora das serras circundantes da terrinha. Páginas assim, de acordo com Andreilton Barbosa, “preenchem lacunas na consciência histórica” do bonfinense. Se não for assim, o autor se dispõe a esclarecer mano-a-mano. É o que está escrito na segunda orelha do volume.

Assessoria de Comunicação Social do Governo Cuidando da Nossa Gente
28/05/2010

quinta-feira, 27 de maio de 2010

ACADÊMICOS TEATRALIZAM EM SOLENIDADE AO ANIVERSÁRIO DA CIDADE

Quem não foi, não viu... perdeu! Pode-se dizer que a Academia de Artes e Letras de Senhor do Bonfim realizou e surrealizou, no mais estrito sentido literário e artístico, a sua Sessão Solene ocorrida na noite de ontem (24) em “homenagem ao Aniversário da Cidade”.


Teatro – Houve surpresas e suspenses hitchcockianas. Um espectador pirou. Saiu do meio do público e interrompeu o ato solene aos gritos e frases desconexas – Cadê a chave?... Ah, achei! Não, não é a chave!... Por minutos, seu olhar agitado pôs todos em vexame: “É bebida ou...”. “Ele não ta bem...”. – “Não, não ta!”. Tem nêgo bebo aí? Felizmente, Benedito Oliveira apenas se deixara programar para cometer a síndrome artística. Dramaturgo, produtor e ator, ele concluiu a performance com um poema à cidade aniversariante.

Bom começo – Páginas de reflexão remetidas a Von Martius e a Rui Barbosa deram referência histórica e forma historiográfica ao discurso do presidente José Gonçalves, da Academia. De Rui, ele foi buscar que o “bom começar é meio caminho andado para o bom acabar” – para saudar a progressiva continuidade da terra do Bom Começo.

Cantata – Na noite de pronunciamento dos acadêmicos, Leonor Sena Gomes e outros confrades declamaram poesias afins aos 125 anos de emancipação. Daniel Gomes já tinha feito também boa e inesperada interpretação músico-vocal. Nada mais comovente que a canção Tocando em frente de Almir Sater e Renato Teixeira na voz da confreira Regina Salgado, com Téo Canarana no teclado. Desde o começo: “Ando devagar porque já tive pressa” até o verso final “Cada ser carrega em si o dom de ser capaz, de ser feliz” a suavidade musical da cantata colocou a platéia em cumplicidade coloquial com indefinidos sentimentos: lânguidos... ternos... saudosos... Felizes como propõe a última palavra da composição. Todos acompanharam a repetição, em louvor ao acalanto de interpretação e como não continuou: “Oooooh!”

Anônimos – Quem bem aproveitou a “climatização” foi o Professor. Historiador, poeta, fundador da Academia, o Prefeito Paulo Machado reviveu para os presentes ângulos sensibilizantes da saga humana dos que se responsabilizaram pela “construção do que hoje celebramos: a existência de uma cidade em festa pela emancipação há 125 anos”. Os loiros colhidos por nomes inscritos em placas não justificam nossa omissão às almas anônimas, esquecidas no processo do nosso desenvolvimento. Da Missão do Sahy e de antes, o Doutor Paulo Machado rememorou reflexivamente. Grupos e etnias outrora massacrados hoje são reconhecidos em descendentes “apenas nos olhos amendoados e cabelos lisos”. Remontou a história mais recente também, fixando personagens paisagísticos e humanos de décadas passadas. “A cidade que escapou de nossas mãos”.

Só canção - “Pena que o auditório da Câmara não estivesse superlotado. É quase um infortúnio gostar de canções que penetram no despertar da alma e não ter estado aqui” – murmúrio do Dr. Aurélio Soares, compreendendo que “tudo hoje aqui foi canção”. De fato, Tito Rocha anunciou o Hino Nacional na abertura e também no enceramento da reunião. Intelectuais secretários da administração municipal, políticos, artistas e populares confraternizaram-se na festividade.


Assessoria de Comunicação Social do Governo Cuidando da Nossa Gente - 25/05/2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

DISCURSO DO PRESIDENTE DA ACLASB, POR OCASIÃO DOS 125 ANOS DE SENHOR DO BONFIM



Sentimo-nos lisonjeados de, na condição de presidente da augusta Academia de Ciências, Artes e Letras de Senhor do Bonfim, participar deste ato solene em comemoração aos 125 anos desta elegante e hospitaleira cidade.

Reportamo-nos aqui, àquele longínquo 28 de maio de 1885, ainda em plena Monarquia, quando pela Lei Provincial de n° 2.499, a antiga vila, denominada Vila Nova da Rainha, condição que ostentava desde 1799, é elevada à categoria de Cidade, com o “auspicioso” nome de Senhor do Bonfim.

Mais do que um marco cívico na vida dos cidadãos e cidadãs, o aniversário de uma cidade é uma página que viramos para conquistar novos sonhos e continuar reescrevendo a história.

Comemorar implica fazer recordar, lembrar, trazer à memória, solenizar para recordar.
Neste sentido, queremos trazer para este ato solene e comemorativo a memória de todos aqueles que, indistintamente, independente de estratificação social, contribuíram para o progresso e o engrandecimento desta terra.

Na mesma perspectiva, achamos oportuno incorporar a esta humilde intervenção, algumas das inúmeras impressões que se registraram sobre Senhor do Bonfim, ao longo de sua história. Cremos de bom alvitre, dar a eles, os responsáveis por esses testemunhos, a oportunidade de puderem falar novamente.

O primeiro testemunho, para obedecermos a ordem cronológica, nos vem de Carlos Frederico Philippe von Martius, naturalista alemão, designado por ninguém menos que sua majestade, D. João VI, na época em que o Brasil servia de refugio à dinastia de Bragança, para pesquisar as províncias mais importantes do Brasil e formar coleções botânicas, zoológicas e mineralógicas.

Von Martius esteve em Vila Nova da Rainha, segundo ele mesmo informa, em março de 1819, num momento em que uma terrível seca devastava a região. Em razão disso, nos legou impressões por demais negativas a respeito da então futura Terra do Bom Começo. As informações constam do livro Através da Bahia, escrito em alemão e vertido para o português em 1916, portanto cem anos depois. É o que veremos, em fragmentos:

“Vila Nova da Rainha, chamada Jacobina Nova, foi sempre uma aldeia pobre cuja prosperidade depende do comércio entre a Bahia e a província do Piauí. Achava-se pela absoluta falta de chuvas, num estado de consternação, num abatimento e calamidade de que então não podíamos fazer ideia. Vimos grandes plantações de feijão, milho e mandioca, todas queimadas pelo sol violento, como entre nós acontece pela ação extemporânea da friagem. Campos, estorricados pela grande seca, haviam ficado sem plantação desde alguns anos, deixando ver fileiras de troncos sem folhas e sem vida. Nada podia mais concorrer para diminuir as esperanças exageradas de muitos imigrantes europeus irrefletidos, do que o aspecto de uma vegetação assim assolada. Muito gado havia perecido de fome e sede e uma parte dos moradores abastados mudaram-se para o Rio São Francisco, de onde presentemente se importavam todos os mantimentos”.

O cientista germânico, contudo, nos traz informação reveladora: “Tamanha pobreza agrícola – continua ele – como a que ali observamos, nos parecia tanto mais inesperada, quando os arredores da vila se prestavam a qualquer cultura, pois a aldeia é rodeada de montanhas (...) que em seus vales têm caatingas altas e camadas de humo relativamente espessa”.

O cenário de von Martius seria contrastado, cerca de 70 anos depois, pelo de Durval Vieira de Aguiar – coronel da Polícia Militar da Bahia, incumbido de percorrer os municípios da província baiana, a fim de traçar-lhes o perfil sócio, político e geográfico. Esse trabalho de gigante originaria o volume intitulado Descrições Práticas da Província da Bahia, em cujas páginas avulta o nome de Senhor do Bonfim. Da visita, ocorrida provavelmente em 1888, resultaria o depoimento que transcrevemos em parte:

“A cidade há poucos anos tinha 1.005 prédios, divididos em dois bairros: um antigo, com velhas e feias casas, fica na parte mais baixa – do lado em que se acha a estação; o outro, mais modernamente construído, aumenta progressivamente de edificação em torno e nas imediações da praça do mercado, a qual se compõe de um grande quadrilongo levemente arrampado. Aí acha-se localizado o grande e animado comércio, constante de muitas e bem sortidas lojas e armazéns. A feira que ali se faz nos sábados, é ainda incontestavelmente uma das primeiras da Província, tanto pela grande concorrência, avaliada em mais de 20 mil pessoas, como pela afluência de gêneros e giro de grandes capitais. Em tempo de seca esse grande mercado abastece Monte Santo, Juazeiro, Capim Grosso (atualmente Curaçá) e até parte dos sertões do Ceará (...). Nas imediações da cidade existem magníficos sítios de uma verdura encantadora em frutas e cereais. (...) Os demais terrenos semeados de grotas, regados de riachos, sombreados por matas e montanhas, oferecem à lavoura, no fundo dos vales, uma prodigiosa fertilidade, perfeitamente abrigada dos ardores do sol, que resseca a parte saliente destinada a criação, para a qual existem diversas fazendas (...) O termo de Vila Nova é um verdadeiro oásis posto no meio dos agrestes e quase estéreis tabuleiros do norte do nosso sertão (...) O clima é ameno e perfeitamente salubre, a água é excelente e a alimentação boa e barata. (...) A pequena lavoura [uma referência, poderíamos dizer, em termos modernos, à Agricultura Familiar – NdA], justamente a que engrandece os países, e não a que monopoliza, é que abastece o termo, e que vai crescendo sem sentir o braço escravo, coisa rara no sertão, e cujo desaparecimento só aflige aos grandes senhores do recôncavo”.

Outro testemunho digno de nota nos legou o escritor bonfinense Lourenço Pereira da Silva, numa publicação de 1915. Além de homem de letras, Silva exerceu também a atividade política, tendo sido presidente do Conselho Municipal entre 1904 e 1907.

A exemplo do anterior, o testemunho a que ora nos referimos, põe em destaque a exuberância dos recursos naturais existentes em terras de Bonfim, sede da comarca do mesmo nome, que compreendia também os municípios de Campo Formoso e de Santo Antônio das Queimadas.

“A zona pastoril – escreve Lourenço Pereira Silva, em Memória Histórica e Geográfica sobre a Comarca do Bonfim – apresenta-se coberta de luxuriante vegetação caatingueira, com ricas pastagens nas extensas chapadas e algumas matas nas encostas da Serra da Itiúba e nos vales do Itapicuru-assu e Itapicuru. A zona agrícola é montanhosa e coberta de matas seculares, que o machado do agricultor imprevidente vai derrubando sem cautela, abrindo imensas clareiras aqui, devastando por completo ali, desnudando assim o solo, que sem força para proteger a umidade, se vai tornando menos fértil, diminuindo de modo assustador a capacidade das vertentes”.

Noutro passo da sua obra magnífica, o ilustrado autor bonfinense noticia que “O progresso de Vila Nova acentuava-se dia-a-dia com a mais lisonjeira evidência, aumentando a população do seu termo, de modo considerável”.

Fechemos esta miscelânea, evocando as palavras do ilustre senador baiano, Rui Barbosa, quando aqui esteve em 5 de dezembro de 1919, na condição de candidato a presidente da República. Frente a uma multidão de cerca de três mil pessoas, o nosso Águia de Haia, proferiu em terras bonfinenses, aquele que foi considerado o melhor e mais eloquente discurso da sua terceira campanha ao então Palácio do Catete. A conferência que teve lugar no Paço Municipal e durou aproximadamente duas horas, foi encerrada de forma lapidar:

“Isto que me está ocorrendo – dizia o tribuno baiano, conforme transcrição do ensaísta bonfinense Adolfo Silva, no seu clássico Bonfim, Terra do Bom Começo – é o alvorecer desse dia. A consciência destas regiões já o sente, e vem encontrar-se aqui, hoje, com a consciência nacional, cuja voz neste momento vos fala por minha, indigna de tanta honra, mas a ela fiel. Dir-se-ia que nos achamos nos Estados Gerais do sertão, aqui reunidos para dar à Bahia a liberdade. É um espetáculo este, cuja magnificência os meus olhos não se saciam de ver, e o meu coração não cansará de guardar. Na contemplação dele se nos mostra que a cidade do Bonfim, hoje, se excede a si mesma. Ela nos cauciona as suas promessas, com o que desde já, em liberalidades inesperadas, nos vai adiantando. A cidade do Bonfim, neste momento, não é só a cidade do Bonfim, mas também a cidade do Bom Começo. Ora, senhores, o bom começar é meio caminho andado para o bom acabar”.

Senhoras e senhores,

Esta é Senhor do Bonfim, o berço querido que não cansamos de cantar e decantar. Os seus feitos gloriosos nos enchem de orgulho, nos nutrem o espírito e nos impulsionam a seguir a luta dos antigos construtores.

Caros acadêmicos, não podemos, nós, ficar aqui apenas a contemplar os feitos dos que fizeram. É necessário que também nós, que envergamos o galardão desta toga, assumamos o compromisso de escrever e reescrever, com a tintura dos tempos hodiernos, a história da terra que amamos.


Olhemos para o futuro e prestemos contas ao passado, pedindo a bênção aos seus grandes formadores. A nossa alma bonfinense é um legado ofertado pelos grandes homens mulheres que nesses 125 anos construíram a grandeza desta terra.


Nossos prédios, nossas ruas, nossas pedras portuguesas, nosso solo, nossos campos e, principalmente nossa gente, trazem a energia do passado, um passado meritório. Os caminhos que pisamos hoje foram as trilhas utilizadas pelos nossos ancestrais, acumulando sonhos, realizações, sentimentos...


Encerramos aqui, evocando a lira maviosa de Augusto Sena Gomes:


(...)
“Terra minha abençoada,
Pelo Senhor amparada,
Quisera sempre viver,
Vendo as tuas serranias
Ao calor das alegrias
Que fazem meu bem-querer...

(...)

Terra minha bem amada,
Flor mimosa perfumada
No jardim do meu sertão,
Meu sonho minha ventura,
É sentir-te na ternura
Dentro do meu coração!

Deixa-me assim contemplar-te
Para mais poder amar-te,
E ter-te perto de mim.
Embevecido, sonhando
Pelo teu porvir, rezando
Ao meu Senhor do Bonfim”.




José Gonçalves do Nascimento
Presidente da ACLASB

sábado, 13 de março de 2010

ANTÔNIO CONSELHEIRO: A LUTA CONTRA A OPRESSÃO

“O homem era alto e magro... sua pele era escura, seus ossos proeminentes e seus olhos ardiam como fogo perpétuo. Calçava sandálias de pastor e a túnica de azulão... era impossível saber sua idade, sua procedência, sua história...”.

Este, o perfil de Antônio Conselheiro, na visão poética de Mário Vargas Llosa.

No último quartel do século XIX, a figura de Antônio Conselheiro tornou-se um dos principais assuntos do país, com espaço garantido na imprensa, nos fóruns, nos parlamentos, nos gabinetes administrativos, nas igrejas... A saga deste homem resultou no surgimento de uma das mais extraordinárias experiências de organização popular que a história do Brasil já conheceu: o arraial de Canudos ou Belo Monte.

Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Quixeramobim, então província do Ceará, no dia 13 de março de 1830. Era filho do comerciante Vicente Mendes Maciel e de Maria Joaquina do Nascimento. Quando jovem frequentou uma das poucas escolas que havia na sua região, onde aprendeu Português, Aritmética, Geografia, além de rudimentos de Latim e Francês. Já naquela época, Antônio demonstrava interesse pela leitura da Bíblia.

As constantes lutas entre os Maciel (família de Antônio Conselheiro) e a família Araújo, sua rival, marcaram profundamente a pessoa de Antônio Vicente, ainda em plena infância. Os Maciel eram, constantemente, acusados de roubos nas propriedades dos Araújo. Essas acusações resultavam em lutas “das mais sangrentas dos sertões do Ceará”, como descreve o historiador João Brígido. A justiça, sempre do lado mais forte, embora reconhecesse a inocência da família Maciel, preferia tomar a defesa dos Araújo.

Era esse o mundo de Antônio Vicente Mendes Maciel. Era esse o Nordeste Brasileiro: chão de injustiça, opressão, dominação, impunidade, seca, fome... mas, também, de muita resistência!


ENVAGELIZAR SEM ARMAS


Homem profundamente religioso, Antônio Vicente não podia dizer “amém” à situação de miséria que tomava conta do Nordeste. Durante 20 anos percorre vários estados nordestinos. Seu propósito era se inteirar dos problemas da região para, a partir daí, empreender a sua missão. Ele sonhava com uma terra livre da dominação dos coronéis.

Antônio não apelou para as armas, nem optou por mecanismos político-partidários. Buscou, antes, transformar a realidade, à luz da palavra libertadora de Deus. O mesmo Deus que caminha com o povo, desde os tempos de Abraão. Por conta dessa missão, Antônio Vicente se converte em Antônio Conselheiro. Sua missão não se restringe apenas a palavra. Envolve, também, a ação. Só a palavra não basta!

Túnica azul, alpercata e bordão! Assim, o profeta sertanejo vai conduzindo seu povo. No início são poucos, depois serão multidões. E a terra da promissão? Estão a caminho! E, enquanto caminham, vão surgindo as construções. Constroem açudes, cemitérios, estradas, capelas... Constroem de acordo com as carências dos pobres que encontram pela frente. Antônio Conselheiro era bom construtor. Herdara do pai essa experiência.

Muitas dessas edificações, ainda podem ser vista por estes sertões. Dois exemplos clássicos são Chorrochó e Monte Santo. Na primeira, a igreja do Senhor do Bonfim; na última, a reforma de parte do caminho da Santa Cruz.


LUGAR SEM RICOS E POBRES


Após longos anos de peregrinação, o grupo resolve se estabelecer em local fixo. O lugar escolhido, Canudos, era uma antiga fazenda de gado situada às margens do Rio Vaza-Barris. As terras eram úmidas e férteis, devido às águas do grande rio, o que proporcionava uma boa agricultura. A vegetação à base de arbustos e favelas favorecia a criação de bode. A pele deste animal chegou a ser exportada para o exterior. Em quatro anos (1893-1897) o arraial aglomerou de 10 a 15 mil pessoas, sendo uma das maiores cidades do estado da Bahia.

Canudos era uma comunidade solidária. Cada um tinha, de acordo com suas necessidades. Ali havia escola e serviço de saúde. Tinha também uma igreja, onde a comunidade se reunia para louvar a Deus. Era uma nova sociedade, muito diferente daquela semi-feudal do restante do Nordeste. O povo vivia decentemente e não dependia dos coronéis. Não demorou muito, e Canudos começou a abalar a velha estrutura rural. A “Canaã do Povo” corria perigo!

A partir de novembro de 1896 se intensifica a perseguição contra a comunidade de Antônio Conselheiro. Com o propósito de construir uma igreja maior em Canudos, o peregrino negocia compra de madeira em Juazeiro. O material comprado e pago, não foi entregue no prazo determinado. A construção, contudo, tinha que continuar. Então, os canudenses tomam a iniciativa de irem, eles mesmos, a Juazeiro a fim de conduzir a madeira até Canudos. A notícia chega à cidade san-franciscana e soa mal aos ouvidos do juiz daquela comarca, Dr. Arlindo Leone, antigo desafeto do Conselheiro. O magistrado alarmou por toda a cidade e vizinhança que os canudenses estariam preparando um saque à feira de Juazeiro. Era a oportunidade que Leone esperava, para acertar contas com Antônio Conselheiro.


RESISTÊNCIA ÀS EXPEDIÇÕES


Sob pretexto de que a cidade de Juazeiro estava prestes a ser invadida por moradores de Canudos, Arlindo Leone requisita do governador da Bahia, Luiz Viana, proteção policial, a fim de conter a suposta invasão. O juiz é atendido, e para Juazeiro é enviada a primeira expedição militar. Composta de 100 praças e comandada pelo tenente Pires Ferreira, esta expedição é derrotada pelos canudenses no combate de Uauá.

Imediatamente é organizada a segunda expedição que, sob o comando do major Febrônio de Brito, tinha 543 praças, 14 oficiais e três médicos. Essa expedição também não resistiu. Foi batida pelos sertanejos, que se valiam de armas rústicas, como espingardas, facões, machados, etc.

Para comandar a terceira expedição contra Canudos, escolheram “a maior estrela do florianismo” – na expressão de José Antonio Sola – o coronel Antônio Moreira César, já famoso por ter liquidado a Campanha Federalista de Santa Catarina. Essa expedição reunia 1.300 homens. Também foi derrotada pelos seguidores de Antônio Conselheiro. Moreira César morreu no início dos combates.

A quarta expedição, destinada a fechar o cerco contra Canudos, foi dividida em duas colunas. Uma coluna partiu de Sergipe, a outra de Monte Santo. A primeira, comandada pelo general Savaget; a segunda sob o comando do general Silva Barbosa. Essa expedição contava com batalhões de 11 estados da Federação.

Depois de muita resistência, tanto do lado do Exercito, como do lado dos sertanejos, Canudos, finalmente, é derrotado. Foi quase um ano de resistência. Tombou por completo no dia 5 de outubro de 1897. Antônio Conselheiro morreu no dia 22 de setembro. No dia 06 de outubro seu corpo foi exumado, decapitado e seu crânio levado a Salvador, a fim de ser examinado cientificamente. Foi uma grande chacina. Nessa guerra morreram milhares de pessoas entre sertanejos e “homens do Governo”.
Euclides da Cunha, jornalista que acompanhou o desenrolar da quarta expedição, escreveu no final d'Os Sertões”, o seu livro vingador: “Canudos não se rendeu, exemplo único em toda história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5 ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”.

Sobre esses “quatro”, Enrique Duque Estrada de Macedo Soares, tem melhor descrição: “um velho, um rapaz de 10 a 18 anos, um preto e um caboclo”. Para Edmundo Moniz, aí estava a representação das três raças que, unidas, lutaram contra a fome, a miséria e a opressão.


José Gonçalves do Nascimento
(Membro da Academia de Ciências, Artes de Letras de Senhor do Bonfim)

(Nota: artigo publicado, originalmente, no Jornal de Opinião, de Belo Horizonte, edição de 12-18 de agosto de 1990)

segunda-feira, 1 de março de 2010

SENHOR DO BONFIM E A GUERRA DE CANUDOS

Instalado às margens do rio Vaza Barris, em 1893, por obra de Antônio Conselheiro, Canudos foi, talvez, o maior exemplo de insubordinação popular que a história do Brasil já registrou. Em apenas quatro anos (1893-1897), o arraial, que começou com um número pequeno de pessoas, já era um dos maiores centros populacionais do interior da Bahia, sendo responsável, inclusive, pela sua autossustentação. Seu status de sociedade autônoma e insubmissa aos ditames oficiais terminou despertando a ira das elites brasileiras, as quais resolveram apelar para o confronto. Assim, tinha lugar a guerra de Canudos. A luta, que durou cerca de um ano, mobilizou quatro expedições do Exército Brasileiro e matou milhares de pessoas, entre soldados e adeptos do Conselheiro.

Ao vasculhar os anais da história bonfinense nos deparamos com informações altamente valiosas, acerca da participação de Senhor do Bonfim nos fatos relativos ao episódio de Canudos.

A primeira delas, quem nos traz é o ilustre escritor Nertan Macedo, numa publicação dos anos sessenta, e se refere a dois irmãos cearenses, Antônio e Honório Assunção – os irmãos Vilanova, como ficariam conhecidos mais tarde. Os dois foram tangidos do Ceará pela terrível seca de 1877, vindo parar na então Vila Nova da Rainha, donde o cognome Vilanova. Antônio era comerciante; Honório, mais moço, era seleiro. Estabelecidos na nova terra, aqui fizeram vida e constituíram família.

Certa feita, o cônego Pedro Hugo chamou Antônio Vilanova e disse: “Sei que você gosta de mascateação. Vou fazer uma desobriga e você vai comigo. Poderá vender muito pelo caminho.” E se foram, ambos, caatinga a dentro. Em Uauá, última etapa da desobriga, Antônio deixa o cura e prossegue viagem até Canudos, unindo-se a um grupo de peregrinos que demandava o “arraial sagrado”. O mascateador gostou tanto de Canudos, que terminou ali ficando. De Vila Nova da Rainha, Honório ia despachando a mercadoria que Antônio solicitava, de sorte que Canudos passou a abastecer-se, basicamente, das mercadorias oriundas da então futura Terra do Bom Começo. Tempos depois, a convite do irmão, Honório Vilanova também mudaria para Canudos.

Não demorou muito, e os irmãos Vilanova se tornaram detentores do maior estabelecimento comercial de Canudos, o que lhes conferiu prestígio e os fez participar do grupo das pessoas mais influentes do séquito conselheirista. Antes de findar a guerra, e com o consentimento de Antônio Conselheiro, os dois voltariam para o Ceará, levando boa parte de suas fortunas.

Outras informações dignas de nota dizem respeito à fase da guerra, propriamente dita, e têm como responsável o escritor bonfinense Lourenço Pereira da Silva, no livro Memória Histórica e Geográfica da Comarca do Bonfim, de 1915. Contemporâneo dos acontecimentos que abalaram o sertão da Bahia, no final do século XIX, Silva nos oferece informações muito valiosas, no que se refere à participação de Senhor do Bonfim na guerra de Canudos.

Vejamos os fatos.

No início de março de 1897, após o fracasso da 3ª expedição, comandada pelo coronel Moreira César, o Conselho Municipal, sob a liderança de João Martins Fontes, emitiu a seguinte nota de pesar: “O Conselho Municipal da cidade do Bonfim, vivamente impressionado pelo insucesso da expedição enviada pelo governo federal para destroçar os fanáticos de Canudos, capitaneados por Antônio Conselheiro (...), deixa consignada aqui a expressão de seu profundo pesar por tão lamentável acontecimento”. O mesmo Conselho votou, no final de março, um projeto do intendente Antônio Laurindo da Silva, que dava a alguns logradouros de Bonfim, nomes de oficiais mortos durante o enfrentamento da 3ª expedição. Pelo projeto, as antigas praças do Campo do Gado e do Reservatório passaram a se chamar Coronel Moreira César, e Capitão Salomão, respectivamente. Já o Coronel Tamarindo batizou uma rua que surgia atrás da praça Dr. José Gonçalves. A essas manifestações seguiram-se, ainda, duas missas de trigésimo dia, que a municipalidade mandou celebrar, em sufrágio dos mortos.

Com a chegada da 4ª expedição ao teatro da luta, estreita-se ainda mais a relação de Senhor do Bonfim com a guerra de Canudos. É revelador neste sentido, o fato da antiga Vila Nova da Rainha ter se transformado no principal centro de fornecimento de víveres para as forças legais, “subindo a cerca de dez mil, o número de bovinos fornecidos no espaço de sete meses”.

Concomitante a isso, a filarmônica União e Recreio arrecadou e entregou quase três contos de réis ao Comitê Patriótico da Ba
hia, uma organização não governamental fundada, à época, com a finalidade de prestar socorro aos soldados envolvidos no conflito.

Finda a guerra, a cidade foi palco de várias manifestações, em comemoração à vitória das forças expedicionárias. Ao som da União e Recreio, diversas autoridades e famílias de Bonfim se dirigiram à cidade de Queimadas, em trem especial, a fim de aplaudir de perto o comandante das forças em operação, general Artur Oscar Guimarães.

Não menos calorosa, foi a recepção que a população bonfinense fez ao coronel José Siqueira de Menezes, que esteve em Senhor do Bonfim poucos dias após o término da guerra. Meneses, um dos militares que mais se destacaram no campo de batalha, foi recepcionado no antigo Hotel Loureiro, onde participou de jantar oferecido em sua homenagem.

Portanto, Senhor do Bonfim teve participação relevante nos fatos de Canudos. Mais ainda: sua participação foi decisiva para que tais fatos tivessem o desfecho que tiveram.



José Gonçalves do Nascimento
(Presidente da Academia de Ciências, Artes e Letras de Senhor do Bonfim - ACLASB)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

HOJE É CARNAVAL


Hoje é domingo,

segunda e terça,

hoje é carnaval.

Carnaval é dia,

todo dia,

sem noite,

sem escuridão.



Mamãe eu vou pro carnaval!

Com fantasia, ou sem fantasia,

eu só quero é ser feliz.

Lá o dia não tem fim

e a vida é menos confusa.



No início era o carnaval!

E dos corpos,

e gingados,

e batuques...

teve origem o pulsar

de uma nova geração.

Tudo que respira é carnaval:

o mundo, os negócios, o amor...

tudo é carnaval!

O carnaval é,

absolutamente,

tudo!

Não há vida,

além do carnaval.



Hoje é domingo, segunda e terça,

amanhã é quarta-feira de cinzas.


José Gonçalves

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

POSSE NA ACADEMIA


Com muita música, cultura e poesia a Academia de Ciências, Artes e Letras de Senhor do Bonfim (ACLASB) comemorou, na sexta-feira, 04/12/2009, o dia Municipal da Cultura. Na programação a posse de três novos acadêmicos – Dr. Aurélio Soares, Téo Canarana e Daniel Gomes dos Santos e ainda a investidura da nova diretoria. A ex-presidente Eurídice Melo Pita passou a presidência ao acadêmico José Gonçalves do Nascimento, poeta, filósofo, formado em teologia que tomou posse para dirigir a entidade nos próximos dois anos.

Fonte: Jornal Bonfim Hoje, janeiro/2010

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O TERREMOTO E A SOLIDARIEDADE GLOBAL



“Pense no Haiti, reze pelo Haiti,
o Haiti é aqui”.

(Caetano Veloso)


O mundo todo assiste consternado aos horrores provocados pelos tremores de terra ocorridos no Haiti. Gritos de dor a se levantarem dos escombros; corpos putrefatos a se esparramarem por todos os lados; montões de entulhos onde antes eram prédios habitados; levas e mais levas de pessoas desoladas, a perambularem pelas ruas, famintas e sedentas. Estima-se que 80% das construções de Porto Príncipe foram destruídas ou se encontram seriamente danificadas. O número de mortos pode chegar aos 200 mil e o de desabrigados aos três milhões. Entre as vítimas brasileiras, a maioria militares, está a coordenadora nacional da Pastoral da Criança, Dra. Zilda Arns, que se encontrava no país a serviço da entidade. Essa é a situação em que se apresenta a capital haitiana, conforme noticiário da imprensa do mundo inteiro.

Diante do quadro, uma pergunta se faz inevitável: por que logo o Haiti? Um país que estava tentando se refazer depois de tantos anos de sofrimento! Situado na região do Caribe, entre Cuba e a República Dominicana, e contando com uma população de cerca de 8 milhões de habitantes, o Haiti é, seguramente, o país mais pobre do continente americano. Depois de longo período de instabilidade política e econômica, marcado por ditaduras e conflitos internos, o país caribenho começava a vislumbrar uma certa tranquilidade. Em 2004, por iniciativa do Conselho de Segurança das Nações Unidas e sob o comando do Exército Brasileiro, se estabeleceu ali uma missão de paz, com o objetivo de garantir a ordem interna e ajudar na reconstrução do país. Só a fatalidade, ela que tem a sua lógica própria, poderá explicar o ocorrido!

Há, todavia, um aspecto positivo que se vislumbra em meio a tudo isso. É a solidariedade internacional. Em poucas vezes, na história, se viu tanta gente envolvida ao redor de uma causa humanitária. Países do mundo inteiro estão mobilizados em torno do acontecimento; equipes de socorro são enviadas a todo instante; milhões de toneladas de mantimento são despachados a cada dia; somas relevantes de recursos já começam a ser carreadas em função daquela gente e um fundo internacional está sendo criado com o objetivo de reconstruir o país devastado. Até velhos desafetos começam a fazer concessões, como é o caso de Cuba que liberou seu espaço aéreo para que os Estados Unidos possam trafegar livremente, levando ajuda ao povo haitiano. Trata-se de algo realmente estupendo! Seria esse o lado bom da globalização? Talvez sim!

Na verdade, o que se verifica nesse gesto é a capacidade do ser humano de se sensibilizar com as situações adversas do seu semelhante, independentemente de onde este se encontre. Nota-se aí a tendência natural do ser humano, que é a de fazer o bem. O homem é naturalmente bom. Se em algum momento ele se mostrou diferente foi por conta das fragilidades, próprias da sua condição de ser contingente. A tragédia do Haiti, se por um lado ela é cruel, por outro lado ela dá oportunidade para que os seres humanos mostrem que ainda são capazes de amar e serem solidários. Nem tudo está perdido! Talvez tenha sido esse o pensamento de Dom Paulo Evaristo Arns, quando ao final da nota sobre o falecimento da sua irmã Zilda, vítima do trágico episódio, disse que “não é hora de perder a esperança”. Quantos ensinamentos!



José Gonçalves do Nascimento
(Presidente da Academia de Ciências, Letras e Artes de Senhor do Bonfim - ACLASB)

SER CRIANÇA

“Toda criança é um rei”
(R. Ribeiro)

Somos filhos do hoje
e trazemos nos olhos
o broto do novo dia.
Somos o sangue novo,
do novo homem que virá.

Somente nós compreendemos
o sentido do mundo
que Deus sonha para os homens.

Em nossas mãos está a luz
que iluminará o destino do mundo;
em nossa cabeça
está a idéia que mais convence;
em nosso coração
está o amor que mais ama;
em nossos pés
está a coragem que mais vence;
em nossos olhos
está a esperança que mais espera.

Somos a ousadia, questionamos;
somos o otimismo, confiamos;
somos rei, reinamos;
somos Deus, criamos;
somos criança, rimos.

José Gonçalves

ESTRELA ÚNICA

Donde vem esta estrela
Que reluz ante os meus olhos?
E que magia é esta
Que me inebria o coração?
Que força é esta
Que me arrebata e me seduz?
Quem és tu, afinal?
Tua resposta
está no teu silêncio
e se traduz
na meiguice
do teu olhar;
na beleza
do teu coração;
na simplicidade
do teu espírito;
na pureza
dos teus sonhos;
no teu jeito próprio de amar.
Um dia, ao vislumbrar
a tua face
percebi o quanto
é grande a tua alma –
esta coisa que cativa
e te faz especial.
Estar contigo
é experimentar
a grandeza do teu ser,
a doçura do teu sorriso discreto,
o sabor do abraço...
O teu nome
Traduz o que tu és: ÚNICA.
Única,
como único
é o meu amor
por você.

José Gonçalves

A LUA

Cai o dia,
Levanta a noite!
No passo do silêncio noturno,
ela chega e me diz em cochicho:
“Ficaremos juntos a noite inteirinha”.
Então as trevas se desfazem,
os horizontes se abrem,
e nós nos afagamos,
mortos de paixão.

O cantar de um pássaro perdido,
a brisa que açoita levemente,
a folha seca que cai,
o vaga-lume que pisca além...
É nesse cenário fantástico
que nós fervemos de amor
vendo a noite passar.


José Gonçalves

PINGO DE LÁGRIMAS

Pingo de lágrima,
eco do coração
fagulha da alma,
pedaço de dor,
reflexo da emoção.


José Gonçalves

NO DIA EM QUE EU MORRER

“Quando eu morrer não me chores,
deixo a vida sem sodade”

(Mário de Andrade)


No dia em que eu morrer,
o espaço terá um corpo a menos.
No meu lugar, porém, gostaria
que plantassem uma árvore
de raiz flor e fruto.
Só assim honrarei
a minha passagem por aqui.

No dia em que eu morrer
prefiro que ninguém saiba.
Não quero choro,
Nem noticiário.
Quero, apenas, que no meu lugar
plantem uma árvore
de raiz, flor e fruto.

Pouco me importa
quando isto vai acontecer!
Lá para onde irei,
o tempo é o menos importante.
Já aqui, quanto menor for o tempo,
tanto maior será o espaço.

Resistir é preciso,
mas como por obstáculo à onda,
se a onda faz parte da dinâmica do mar!?


José Gonçalves do Nascimento

SENHORA UNIVERSAL

Maria menina,
Virgem senhora.
Senhora aqui e em Nazaré,
Senhora em seu tempo e em nosso tempo.
Senhora do seu povo
e de todos os povos.
Senhora dos cristãos e dos sem religião.
Senhora do ontem e do hoje,
Senhora do céu e da terra.

Pobre moça de Nazaré!
Gente do povo e sem prestígio,
Entretanto a escolhida
Pra ser mãe do povo redento.

Ó, Senhora nossa ,
Sei que não estás longe!

Vejo-te na caminhada da Igreja,
Lutando com os que lutam no dia-a-dia,
Na tentativa e erguer o Reino
Do qual foste a primeira colaboradora.

Vejo-te nas Marias daqui e d’agora!
Na lavadeira,
Na gari,
Na agricultora,
Na menina sem escola
E sem pão.

Vejo-te na mãe solteira
E também naquelas que vendem o corpo
Como meio de sobrevivência.

Vejo-te em todas as Marias,
Sejam elas sonhadoras ou não.

És mãe de muitos filhos,
Senhora de muitos rostos,
E de tantas denominações.
Senhora negra de Aparecida,
Senhora índia de Guadalupe...
Senhora da África e da Ásia,
Senhora da Europa e das Américas,
Senhora da Oceania e do mundo inteiro.

Senhora, que o tu canto
Seja cantando por todas as bocas!
Que cada homem e cada mulher
Possam aprender de ti a lição do amor.


José Gonçalves

(IN)INSPIRAÇÃO

Poeta cadê a poesia?
(Ó musa tão vagabunda!)
És rio, mas sempre em “estia”
És fêmea, porém não fecundas.

Terra que verde não tem
Roxinol que o cantar perdeu
Olho aberto que não ver ninguém
Aquele feto que não nasceu.

És ouvido, mas não podes escutar
Narinas, porém sem olfato
Comes sem ter paladar
És corpo, mas não tens tato.

És sangue sem a espécie vermelha
És cor, mas sem identidade
És chama, porém sem centelha
Mexes em tudo, mas sem habilidade.

Poeta cadê a poesia?
Musa ingrata deixe que ele cresça!
Não permita que a melancolia
Domine e o vate pereça.


José Gonçalves

MEU AMOR

Quando te vi fui logo te conhecer
E ao te conhecer fiquei fascinado
Tu me cativaste e eu não recuei
Então decidi ficar do teu lado.

Teu grande amor abarcou o meu ser
E eu findei parando em teus braços
De forma, que sem ti não viverei
Contigo não temerei quaisquer fracassos

Lado a lado, estamos sempre juntinhos
És tu que apontas o meu destino
E não me deixas caminhar sozinho.

Serás sempre minha doce companhia
Meu bom Deus, meu amor divino
Minha salvação e minha alegria.

José Gonçalves