terça-feira, 21 de junho de 2011

Em seus devidos lugares

Este ano o Governo Cuidando de Nossa Gente decidiu preencher uma lacuna que o tempo deixou. Na manhã desta segunda-feira (20) o prefeito Paulo Machado, acompanhado de sua equipe de secretários e assessores, foi a público pôr fim a uma antiga questão: a localização equivocada do busto da personalidade histórica de Dr. José Gonçalves, erroneamente entronizado na Praça Dr. Antônio Gonçalves no ano de 1947.

Assunto findo – Para resolver a questão, Paulo Machado teve a iniciativa de encomendar ao artista plástico campo formosense Galego, um busto talhado em pedra, do médico humanitário Dr. Antônio Gonçalves para pôr na Praça Antônio Gonçalves e, assim, alçar no pedestal da Praça Dr. José Gonçalves a presença simbólica do advogado e destacado político do qual o logradouro leva o nome.

A missão foi cumprida a contento e a população bonfinense pôde presenciar a correção. A cerimônia contou com a presença do vice- prefeito Aurélio Soares, do comandante do 6º BPM, coronel César Salgado, da professora Olga Campos de Menezes, do ex-deputado estadual Paulo Braga e da veneranda Araguacy Gonçalves, viúva de Ulisses Gonçalves (irmão do admirado médico, famoso pelos seus atos de caridade). “Um padrão de honestidade e sabedoria. Senhor do Bonfim está de parabéns pela grandeza deste gesto que homenageia este grande homem, grande baiano e brasileiro que foi Antônio” – afirma Araguacy.

Memórias – O presidente da Academia de Letras de Senhor do Bonfim (Aclasb) e assessor de Relações Institucionais da Prefeitura Municipal José Gonçalves também compareceu ao evento. Conhecedor da história dos ilustres homenageados, José aproveitou o momento e discorreu sobre o patriarca da família Gonçalves. “Podemos falar da grande liderança política que Dr. José Gonçalves foi nestas terras. Ele, que assumiu o governo do Estado em um momento muito difícil da vida política baiana que passava da Monarquia para a República. Pode-se afirmar que o político teve o mesmo papel que Floriano Peixoto desempenhou, a nível nacional na consolidação da República” – destacou.

Curiosidade – Ainda de acordo com o presidente da Aclasb, o busto de Dr. José Gonçalves é o único existente na região. “Não se tem conhecimento de outro, além de uma réplica do que se encontra em Senhor do Bonfim. A réplica está no memorial dos governadores, no Palácio Rio Branco, em Salvador” – informou.

Importância do ato – Respondendo a eventuais críticas em relação a esta iniciativa, o Prefeito falou ao público presente. “As pessoas dizem: ‘Que coisa simplória! Um governo perder tempo em colocar um busto em uma praça e inaugurar um novo’. Só mesmo as mentalidades tacanhas não percebem o alcance deste gesto. Primeiro se faz uma correção histórica e o governo tem o papel educador de fazer com que seu povo acompanhe ao longo de sua história aqueles que contribuíram para a grandeza dela. E segundo, é um cuidado com detalhes que são mínimos, mas que elevam a alma de nosso povo. Este é o compromisso de qualquer governo e não poderíamos nos omitir” – rebateu Paulo Machado.


Ano Municipal Dr. José Gonçalves – A transferência dos bustos é uma de algumas das iniciativas que o Governo Cuidando da Nossa Gente deve promover ao longo de 2011, em comemoração acentenário do patriarca Dr. José Gonçalves, que ocorrerá em agosto.



Governo Cuidando da Nossa Gente

Assessoria de Comunicação

quinta-feira, 9 de junho de 2011

JOSÉ GONÇALVES: CENTENÁRIO DE MORTE

O homem é ele e suas circunstâncias.

(Ortega y Gasset)

Na ocasião do centenário de morte de Dr. José Gonçalves da Silva, damo-nos à tarefa de destacar alguns dos traços de maior relevo na vida política deste que foi uma das personagens mais vibrantes da história baiana, tendo sido, entre outras coisas, o primeiro intendente de Senhor do Bonfim e o primeiro governador constitucional da Bahia.

José Gonçalves da Silva nasceu em Mata de São João, em 28 de dezembro de 1838. Formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo em 1859, e em 1860 fixou residência na fazenda Piabas, na época território de Vila Nova da Rainha, hoje município de Campo Formoso, onde começa a atividade política filiado ao Partido Conservador.

Em 1862 foi nomeado Coronel da Guarda Nacional, o que conferiu prestígio ao jovem bacharel de apenas 24 anos, lançando-o na seara política, onde atuou por várias décadas.

De fato, pouco tempo depois, 1895, assumiu ele o comando local do Partido Conservador e, no mesmo ano, tendo lugar as eleições municipais, impôs fragorosa derrota às forças adversárias.
Em 1868 foi eleito deputado provincial e, logo em seguida, teve o nome sufragado para deputado Geral na Corte, pela Província da Bahia. Durante o mandato parlamentar, tomou parte em discussões históricas como as que trataram da abolição da escravatura.

Afastado da política nos últimos anos do Império, foi, entretanto, um dos primeiros chefes políticos a aderir ao regime republicano instalado em 15 de novembro de 1889. Foi ele o “inspirador da adesão de Bonfim à República”, como pontua o douto ensaísta bonfinense Adolfo Silva. Sob sua liderança, foi organizada no dia 17 de novembro de 1889, concorrida passeata pelas ruas de Senhor do Bonfim, em apoio à nova forma de Governo. No dia 19 do mesmo mês, sempre sob sua inspiração, teve lugar na Câmara de Vereadores a adesão oficial da Vila ao regime imposto por Deodoro da Fonseca.

Em fevereiro de 1890 foi nomeado primeiro intendente municipal de Senhor do Bonfim, cargo que ocupou até 15 de outubro do mesmo ano, quando, por nomeação do Governo Provisório, passa a assumir o Governo do Estado.

No dia 2 de julho de 1891, no mesmo dia da promulgação da Primeira Constituição Republicana da Bahia e com apoio dos líderes mais importantes do Partido Conservador, como Luiz Viana, rico proprietário de terras do município de Casa Nova e Cícero Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo, chefe político e latifundiário, com larga influência em diversos municípios do sertão baiano e até de Sergipe, era o líder vilanovense eleito pelo voto dos constituintes primeiro Governador Constitucional do Estado da Bahia.

Investido do cargo máximo do Executivo Baiano, passou ele a dar as cartas na política estadual. Na eleição para a assembléia constituinte em 1891, elegeu todos os 21 senadores estaduais, como previa o sistema bicameral da época, e a grande maioria dos membros da Assembleia Legislativa.
As coisas iam de vento em popa a seu favor até que um fato de alcance nacional mudasse o curso das águas.

Quando em novembro de 1891 o Marechal Deodoro da Fonseca, querendo afirmar sua autonomia sobre o Poder Legislativo, determina a dissolução da Câmara e do Senado, José Gonçalves lhe emprestou apoio. A posição do Governador não agradou a seus aliados que esperavam uma atitude mais cautelosa por parte do Chefe do Executivo.

Mergulhado na primeira crise institucional do Governo Republicano e acuado por todos os lados, quer por políticos sequiosos de poder, quer por militares insatisfeitos com os rumos da política, Deodoro acaba renunciando ao posto para dar lugar ao vice Floriano Peixoto. Alçado ao poder, Floriano começa a caça às bruxas, fazendo derrocar, um a um, os governadores fiéis a Deodoro.
José Gonçalves era um desses.

Tão logo chegaram a Salvador as notícias da renúncia do Marechal, a oposição, liderada pelo Deputado Federal Cézar Zama, se reúne e pede a cabeça do Governador. Este ainda resiste, mas enfraquecido e sem contar com o apoio dos próprios partidários, acaba deposto, assumindo o Governo o Presidente do Senado Estadual, conforme determinava a Constituição da Bahia.
Em 1892, à frente os remanescentes do antigo Partido Conservador, é fundado na Bahia o Partido Republicano Federalista, sendo José Gonçalves escolhido presidente da nova agremiação. Naquele mesmo ano, havendo lugar as eleições parlamentares, foi o mesmo eleito Senador Estadual, cargo que renunciaria mais tarde, quando da cisão do partido que chefiava.

Em junho de 1893 ocorre o que há muito já se esperava. As divergências entre José Gonçalves e Luis Viana, ambos senadores estaduais, em torno da limitação ou não da autonomia municipal, provocaram um racha no Partido Republicano Federalista, o que resultou na configuração de dois grupos antagônicos: o Vianista e o Gonçalvista. Essa cisão levaria ao surgimento de dois novos partidos: o Partido Republicano Federal da Bahia, chefiado por Viana e o Partido Republicano Constitucional, regido por Gonçalves e seu aliado, o também senador estadual Barão de Jeremoabo.

Derrotado em 94 nas eleições para o Senado Federal, José Gonçalves é reeleito no mesmo ano senador estadual, num processo de escolha de todo inusitado. Postas as eleições, era a primeira vez que os dois grupos rivais iriam medir suas forças num pleito de nível estadual e nenhum deles poderia fraquejar. Do contrário, seria alijado do poder. No momento da apuração, apesar dos esforços de fiscalização empreendidos por ambas as partes, nenhuma das facções ligou para o resultado das urnas, “empanturrando de votos os seus candidatos e dando-os como eleitos,” como recorda o historiador Antônio Ferrão Moniz de Aragão.

Tal procedimento levou a uma duplicata de atas eleitorais, lavradas a bico de pena, que geraram a duplicata de diplomas e, por conseguinte, a duplicata do Poder Legislativo – Assembleia e Senado. De forma que a Bahia passou a ter dois Legislativos operando paralelamente. O oficial, liderado pelos governistas, tendo à frente Luis Viana; e o extra-oficial, capitaneado por José Gonçalves e seu fiel escudeiro, o Barão de Jeremoabo.

A mesma situação repetir-se-ia em 1895, desta feita, em relação ao Executivo Estadual. Com problemas de saúde, o Governador Rodrigues Lima teve que se licenciar da função, cabendo ao presidente do Senado Estadual suprir a vacância do cargo. Como havia dois senados e, consequentemente, dois presidentes reivindicando o mesmo posto, acabou por proceder-se também à dualidade do Poder Executivo. Assim, de 18 de outubro a 20 de dezembro de 95, a Bahia operou com dois chefes do Executivo. O impasse só se resolveu quando Lima retornou ao Governo.

Encontrava-se José Gonçalves sem mandato, quando, em 1896, Luis Viana foi eleito Governador do Estado. Na época tomava corpo no sertão o movimento de Canudos, liderado pelo beato cearense Antônio Conselheiro. Tido pelas elites conservadoras como uma tentativa de restauração da Monarquia, tal movimento passou a ser instrumentalizado pela dupla Gonçalves/Jeremoabo, com o fim de desestabilizar o Governo de Viana. Desse modo, tentando forçar uma intervenção federal no Estado, o que de certo favoreceria a oposição, os dois líderes oposicionistas começam a acusar o Chefe do Executivo de tolerância em relação aos fatos de Canudos, alegando que se o mesmo assim procedia era porque nutria algum apreço pela causa da restauração monárquica, supostamente assumida no âmbito da comunidade canudense. Pressionado, Luis Viana declara guerra às hostes conselheiristas. Assim, Canudos se transformava em “bode expiatório” de uma das mais acirradas disputas da história política da Bahia.

O fim da guerra de Canudos e a consequente vitória das forças expedicionárias consolidaram a liderança do grupo vianista. Alijado do poder e sem o prestígio político de outrora, o ex-líder conservador de Vila Nova da Rainha, sempre ao lado do amigo fiel, o barão de Jeremoabo, ainda tentou, mas não conseguiu se reerguer.

Era o fim de uma trajetória política.

Em 1907, após sucessivas derrotas, José Gonçalves recolhe-se de forma definitiva em seu “feudo”, onde falece em 15 de agosto de 1911.

José Gonçalves do Nascimento
Presidente da Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim-Ba.

domingo, 29 de maio de 2011

DEMOLINDO PRECONCEITOS: Academia incorpora e indica mais ícones populares

Extraído de: Prefeitura Municipal de Senhor do Bonfim - 27 de Maio de 2011

Em solenidade cujo primeiro luxo foi o auditório repleto de representantes da cultura bonfinense, a Aclasb (Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim)empossou quatro novos membros: Josemar Santana -advogado, jornalista e escritor; Fernando Dantas, Dramaturgo, músico, e professor; Ieda Barbosa Belitardo de Carvalho, talentosa musicista e maestrina; e Carlos Alberto Dias dos Santos, líder quilombola, representante parlamentar e graduado em Psicopedagogia.

Nobre não foi só o salão do Poder Legislativo, foi também a homenagem aos 126 anos de aniversário da cidade e ao fundador do estado republicano e primeiro governador constitucional da Bahia, Dr. José Gonçalves da Silva, no centenário de morte (1911 -2011). Nobre foi a presença do universo real da sociedade que se desdobrou dos kiriris; a honradez de músicos, magistrados, artistas e acadêmicos nivelando a rara oportunidade de ouvir poesias de sabor superior.

Anônimos - A Aclasb já deu "toga" de imortal a um agricultor que compõe hinos oficiais, abriu a cortina para a excelência do texto do seu presidente José Gonçalves do Nascimento e para o primor expositivo do seu fundador Dr. Paulo Machado: um recompondo a polêmica andança histórica do primeiro Governador da Bahia, outro narrando o poema humano composto por eflúvios d’água da lagoa ("que ainda nos banha") e do Monte Tabor ("que ainda lança auras"). Sangue, suor e saudade; amores, tropeços e emoções; lutas, concórdias e euforias. Enfim toda uma epopéia para que nós da esquina, das universidades, dos bares, das fardas de trabalho e das ruas pudéssemos consignar valores e saberes que são agorinha nossos apegos. O São João na frente e uma fila de orgulhos educacionais, citadinos e culturais inigualáveis. Sabe-o os anônimos que reforçando de paixão os que amam a terra acabam por ser mais apaixonados que os reforçados.

Sonoridade -Duas horas de "achegas" foram rápidas como um raio. Gonzagão deleitou o ouvido da platéia por três minutos de Coral da Saudade. Violão na Academia? A Brasileira de Letras o permitiria? Dedilhado por violonista europeu do renome de um Paganini, sim. Daniel Gomes não usa blak tie e breijerou à altura. Numa noitada curta, o anonimato de Tijuaçu, desmarginalizou um pouco do contido sentimento de etnia reprimida e deu voz de acadêmico a Carlos, o Negão, um negão. Segmentos sociais construtores da jactância bonfinense atual não estão sofrendo preconceito de uma academia. Ela tem um papel a cumprir. Não é só de Letras. É de artes -e nem todas têm conceito definido na divisão do trabalho de uma sociedade em transição. Indefinida. Academias remotas, do distante século 20 envelheceram. Não migraram em escolas de mistos e ativos ensinamentos. A era informática produz colossais batalhões de inominados e nestes alguns ícones que, livres de serem meras testemunhas de uma saga são a própria encarnação desta. Virtuoses da música saem do limbo do esquecimento. Boa noite para a professora Ieda. A batuta do professor de inglês Fernando Dantas obedecia à jovialidade do seu sorriso, mesmo ele regendo a italiana a agradabilíssima La Paloma. Duas canções a do reconhecimento e a da sonoridade musical.

Se "o homem é o homem e suas circunstância", a academia divide a máxima. Sua vontade lhe é legitima. Igual ao espontâneo balbuciar do Hélio Freitas ouvindo a performances doCoral da Saudade na execução de Assum Preto, mirando nos 84 anos da voz de Flavinho, e quem sabe perdendo a vontade de ter visto a Academia Francesa de Richelieu, em 1635. Pra quê? Indicado para assumir uma cadeira acadêmica, ele preferiu o ninho da Associação de Moradores. Lá fora, depois do néctar (nada de chá das cinco) e durante os autógrafos de Josemar o escritor de um velho-novo estilo disse: "Pra mim as academias ainda pressupõem elite".

Por que? -Hélio Freitas é exigente e tem um caçuá de razões. Abomina todos os preconceitos. Aplaudiu ‘no estalo’ quando o nome do incansável, incompreendido e controvertido Monacéis foi proposto para a Aclasb. Dialético que só, ele valoriza o ato, a explosão do fato transformador. Festejar o nome de Antonio Vieira quando este foi mencionado como patrono de Carlos de Tijuaçu; Antonio Vieira, o negro, o poliglota amarrado no velho Lagarto; o respeitável e fino diplomata, de bom trânsito, vida opulenta e culta entre adidos e embaixadores de sua época. Lastimavelmente ignorado pela memória bonfinense póstuma.

Casinha de sapê -A fantasia social fez a noite especialmente mista e perfeitamente amistosa. Daquelas em que o convívio elimina caprichos. A cerimônia conduzida pelos acadêmicos Tito Rocha e Leonor Sena Gomes foi acionada por comandos digitais, o que não impediu que almas fossem invadidas por árias sertanejas como A Morte do Vaqueirode Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Ainda gritando forte, estava lá dona Lourdes (Maria de Lourdes Ramos da Silva), 74, uma entre os 20 coralistas da Orquestra da Saudade, cabeça branquinha a replantar e reviver a Bonfim de ontem, na última estrofe da músicaTristeza do Jeca de Angelino Oliveira: "Vou parar com a minha viola / Já não posso mais cantá /Pois o Jeca quando canta / Tem vontade de chorá / E o choro que vai caindo / Devagar, vai-se sumindo / Como as águas vai pro má.

Cousas e causas -Autoridades formais tal o juiz de direito Tardelli Boaventura, a promotora de justiça Ítala Suzana de Carvalho, o comandante do 6º BPM tenente-coronel Augusto Cesar de Santana Salgado, o presidente da Câmara Municipal João Carlos Bernardes Pereira Junior e outros reverenciaram o Hino Nacional no início da sessão e no fim o hino a Senhor do Bonfim. A fila para autógrafos do trabalho de conclusão de curso de Josemar Santana premiou o novo acadêmico. Ele presenteou um grande número convivas com a obra A força normativa do TSE e a exigência da observação do principio da anualidade para edição de regras eleitorais, apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Direito Eleitoral com opção de habilitação para o Ensino Superior da Fundacem (Fundação Cesar Montes) / Faculdade Mauricio de Nassau.

Além de outros -Além das pessoas citadas, o cerimonial da Aclasb registrou as presenças do Dr. Aurélio Araujo, vice-prefeito; confreira Rubenalva Alves de Souza (Nalvinha), autora de performance; Valberto Silva, presidente do CDL; vereadores Lúcia Cerqueira e Laércio Muniz; secretários municipais Andreilton Barbosa do Meio Ambiente, Maria das Neves Aquino Dourado, da Educação, e Ivomar Gitânio, da Cultura; pecuarista Paulo Braga; professora Rosemary Almeida; professor Matos; casal Gener Andrade e Ana Maria Carvalho; jornalista Neide Pereira, da TBL e Rainha FM; Augusto Gomes, radialista; Regina Salgado e Téo Canarana, que finalizam o CD Mãe Natureza; José Simões Jambeiro, diretor do Colégio Estadual; Raimundo Paiva; dona Deise e professora Mariazinha Salgado; advogados doutores Cícero e Augusta; chefe de gabinete, Cassiano Guimarães; empresário Luiz Cesar Meireles e esposa Ana Kelly, indicada para uma cadeira na Aclasb; Drª Graça Gil; Prof. José Salgado; Renato Rosa; jornalista Antonio Britto; e Antonio Belitardo de Carvalho e família

http://www.jusbrasil.com.br/politica/7054605/demolindo-preconceitos-academia-incorpora-e-indica-mais-icones-populares


domingo, 22 de maio de 2011

Acadêmicos farão sessão solene ao aniversário da cidade

Em sessão a ser realizada no dia 25 de maio, no auditório da Câmara Municipal, a Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim (Aclasb) promoverá diversos atos lítero-musicais, entre os quais prestará significativa homenagem aos 126 anos de emancipação política do município, a se completar no dia 28 de maio.

Posses – A noite de artes e manifestações culturais inclui a posse de quatro novos membros da instituição e o lançamento de livros: um do professor, escritor e acadêmico Dr. Paulo Batista Machado, outro do advogado e jornalista Josemar Santana, que também vai vestir o fardão pela primeira vez, durante a sessão. Além de clássicas exibições poéticas e performances instrumentais, o presidente José Gonçalves do Nascimento anuncia alegres surpresas para o ato.

Tomarão posse como novos acadêmicos: Josemar Santana, Carlos Alberto Dias dos Santos (Negão de Tijuaçu), Fernando Dantas e Ieda Carvalho.

Os membros da Aclasb chamam a si o dever cívico de premiar o aniversário da cidade com o sabor da cultura artística reunida pela instituição.

O que: Sessão solene.

De quem: Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim.

Data: 25 de maio e 2011.

Local: Salão de auditório da Câmara Municipal.

Horário: 19h30



sábado, 12 de março de 2011

HISTÓRIA E SENTIDO DA PÁSCOA CRISTÃ


As primeiras notícias acerca da celebração anual da Páscoa cristã chegaram até nós graças a uma polêmica, envolvendo a data (ou as datas) em que a mesma era celebrada.


14 de Nisã

Segundo um costume, que parece remontar a João Evangelista, a Igreja da Ásia Menor celebrava a Páscoa no 14 de Nisã, dia da morte de Cristo, conforme o calendário judaico (Levítico 23, 5-15). É o que se chamou de “controvérsia quartodecimana”. Contudo, de acordo com uma tradição apostólica, provavelmente vinculada a Pedro, a maior parte das igrejas, entre as quais as de Alexandria, Jerusalém e Roma, celebrava a Páscoa no domingo, depois do 14 de Nisã.


Em meio a tudo isso, teve lugar a chamada “questão pascal”. O dilema era se a Páscoa devia ser celebrada no dia da morte, ou no dia da ressurreição do Senhor. A diversidade de datas da celebração pascal gerou vários atritos dentro dos quadros eclesiásticos, a ponto do papa Vítor (189-199) anunciar a ruptura da Igreja romana com as comunidades que celebravam a Páscoa no 14 de Nisã. Tal ruptura foi evitada, graças à intervenção de alguns bispos, entre eles Irineu de Lion, que afirmavam que a diversidade de datas não afetava o substancial da fé cristã.


Fixação da data

O problema começa a se resolver de forma definitiva no ano 325, quando o Concílio de Niceia, estabeleceu a unidade em torno da festa da Páscoa. Porém, só no século XVI – com o advento do calendário gregoriano – as dificuldades de se precisar a data da celebração foram amenizadas. A data foi fixada no primeiro domingo após a primeira Lua Cheia de Primavera, no Hemisfério Norte, ou no primeiro domingo depois da primeira Lua Cheia de Outono, no Hemisfério Sul, o que faz da Páscoa uma das festas móveis da Igreja, ou seja, sem data fixa.


Significado

Nos textos antigos, a Páscoa – Pessach (em hebraico), passagem da morte para a vida, da escravidão para a liberdade, das trevas para a luz – aparece como síntese de toda História da Salvação, desde a Criação até a Parusia. O centro dessa História é, efetivamente, o Cristo Salvador. Ele é o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim – “Princípio inenarrável e fim incompreensível”.

Com efeito, é a Páscoa de Cristo que dá sentido ao cristianismo. Ela é o ponto de partida e de chegada da fé cristã e o centro de toda atividade da Igreja. Como referência absoluta da ação salvífica de Deus em favor dos seus filhos e filhas, a Páscoa é a razão maior da nossa fé e da nossa esperança na ressurreição dos mortos.

Símbolos pascais

Acredita-se que alguns símbolos pascais, principalmente os ovos coloridos e o coelhinho da Páscoa, sejam resquícios das festividades de primavera, em honra de Eostre, deusa da fertilidade na mitologia anglo-saxônica, posteriormente assimiladas pelo cristianismo.

Ovo e ovos de chocolate

A existência da vida está ligada ao ovo, que simboliza o nascimento e a ressurreição de Cristo. Nos primórdios, era costume presentear as pessoas, por ocasião da Páscoa, com ovos enfeitados e coloridos.

Cacau, cujo nome em grego é Teobroma Cacau, significa “néctar dos deuses”. Ao transformar-se em ovo, o cacau, ou chocolate, representa, com maior intensamente, a força e o renascimento da vida.


Coelhinho da Páscoa


Os coelhos surgiram como símbolos da Páscoa por representarem a fecundidade constante da vida. Por serem animais com capacidade de gerar grandes ninhadas, sua imagem simboliza a capacidade da Igreja de produzir novos discípulos.


Pão e o Vinho


O pão e o vinho eram a comida e bebida mais comuns. Na Santa Ceia Jesus escolheu o pão e o vinho para externar seu amor e sua entrega. Ele se serviu desses alimentos para simbolizar sua presença na Eucaristia. Pão e vinho simbolizam o corpo e sangue de Jesus.

Círio


O Círio Pascal é a grande vela que se acende por ocasião do Sábado Santo, ou Sábado de Aleluia. Quer dizer: “Cristo, a luz dos povos”. Alfa e Ômega nela gravadas querem dizer: “Deus é o princípio e o fim de tudo”.

Da abstinência de carne em dias da quaresma

A prática da abstinência de carne vermelha principalmente nas quartas e sextas-feiras da quaresma se acentuou durante a idade média, numa época em que este alimento era considerado uma preciosidade. Como penitência, os cristãos eram aconselhados a abster-se de um alimento caro, de difícil acesso, optando por outro mais barato e mais acessível, principalmente aos pobres, no caso, o peixe. Hoje equivaleria, mais ou menos, renunciar um bom vinho, um bom wisk, ou um belo dia de sol numa praia do Nordeste. Ou, quem sabe, abrir mão daquele ensopado de bacalhau que, com certeza, não resultaria tão barato.


José Gonçalves do Nascimento

Bacharel em Teologia pela Pontificia Università Urbaniana de Propaganda Fidei – Roma - Itália

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O HAITI É AQUI?


Ano passado, nessa mesma ocasião, o Brasil e o mundo acompanhavam consternados os horrores da catástrofe que se abateu sobre o povo do Haiti, em consequencia de violento terremoto que abalou a pequena e pobre nação caribenha. Sensibilizado com o acontecimento, o planeta todo se mobilizou e uma grande rede de solidariedade (talvez a maior na história humana) logo se constituiu, em favor das vítimas do desastre. Esse gesto, aliás, tornou-se a grande marca daquele triste episódio, sobrepondo-se ao sofrimento, ao desespero, ao flagelo – uma lição para a humanidade!

Os deslizamentos de terra ocorridos este ano na Região Serrana do Rio de Janeiro, ceifando a vida de centenas de pessoas, embora de proporção menor, nos fazem lembrar a tragédia haitiana. A par do sofrimento e da dor de milhares de famílias que choram a perda dos seus entes queridos, vemos, também aqui, entre nós, avultar o sentimento de solidariedade. Da mesma forma como ocorreu no Haiti em termos mundiais, o Brasil também se encontra mobilizado em torno da causa dos irmãos fluminenses e da reconstrução das cidades devastadas.

Mas o paralelo termina aqui. No caso do Haiti tratou-se de uma tragédia imprevisível, inevitável, obra da fatalidade! No caso da Região Serrana, não. Ali tudo era previsível, era evitável. Dias antes dos desastres, institutos de pesquisas meteorológicas já previam que grandes volumes de água haveriam de cair sobre a bela região do interior do estado do Rio de Janeiro. No entanto, nenhuma providência foi tomada. Não deram a menor importância ao fato. Até se esqueceram de que aquela área, por mais de uma vez, já havia sido alvo de enchentes e inundações, inclusive com vítimas fatais.

Muitas vidas teriam sido poupadas se os governos (municipais, Estadual e Federal) numa ação conjunta e preventiva, tivessem investido melhor na infraestrutura urbana dos municípios afetados, atentando-se, entre outras coisas, para o monitoramento dos rios, dos solos e encostas; ou, quando nada, frente à possibilidade iminente de enchentes, houvessem adotado uma política de desocupação das zonas com maiores riscos de desabamento.

Ocorre que o problema é muito maior. Os municípios fluminenses ora atingidos pelas águas de verão, padecem de um mal que é comum à maior parte dos municípios brasileiros: a falta de planejamento urbano. Atiçadas pelo aumento populacional ou, em muitos dos casos, pela especulação imobiliária, as cidades avançam de forma desordenada, comprometendo o meio ambiente e, o que é mais grave, pondo em risco a vida das pessoas. Na Região Serrana as casas foram construídas em encostas, topos de morros, margens de rios, várzeas e, até mesmo, pasmem, em APAs -Áreas de Proteção Ambiental. Somem-se a isso outros problemas, igualmente graves, como a falta de pavimentação, saneamento básico, esgotamento sanitário, canais de escoamento, etc.

Grande parte dos municípios brasileiros tem negligenciado nessa questão, mas a solução para isso já foi apontada pela Lei Federal n° 10.257, de 10 de julho de 2001, denominada Estatuto da Cidade, a qual “estabelece normas de ordem pública e interesse social que regulam o uso da propriedade urbana em prol do bem coletivo, da segurança e do bem-estar dos cidadãos, bem como do equilíbrio ambiental”. Os planos diretores, previstos no artigo 41 deste marco legal, são as ferramentas de que as cidades, com população acima de vinte mil habitantes, poderão se servir para formular suas políticas de ocupação urbana, tendo em vista a construção de espaços mais saudáveis, onde se possa viver com segurança e dignidade.


José Gonçalves do Nascimento

Senhor do Bonfim - Bahia

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ACLSASB empossará novos Imortais

http://www.blogdoclebervieira.com.br/

02/12/2010

A Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim (Aclasb) homenageará o Dia da Cultura bonfinense, 3 de dezembro, com sessão solene noturna em que dará posse a quatro novos acadêmicos: Nivaldo Oliveira Souza, Edivan Ferreira Cajuy, Jacson Roberto Santana e José Antônio Ferreira da Silva (Durá).

A programação divulgada pelo presidente José Gonçalves, da Aclasb, inclui um roteiro de atividades bastante variadas para o ato social. Além da posse, haverá performances teatrais e musicais com a participação de artistas do nível de Benedito Oliveira, Daniel Gomes, Regina Salgado e Teo Canarana. O recital de Antonio Olimpio e a exibição da Orquestra da Saudade – “violino garantido” – também estão confirmados.

Arte na posse – Gonçalves tem expectativas. Ele explica a formação da mesa, presença de autoridades, juramentos e saudações como valores da academia e aduz que posse não é uma mera formalidade:

“O ato de posse reflete o desenvolvimento cultural de Senhor do Bonfim, na variedade e na qualidade de aptidões dos empossados. Esse papel de reconhecimento, pela Aclasb, existe para fortalecer nossas manifestações literárias e artísticas desde o instante de posse. Temos distribuído muitos convites. Será um ato destinado à sociedade como um todo e no próximo dia 3 a Aclasb vai proporcionar a prática artístico-cultural do nosso povo, com os nossos artistas”, estimou.

Salão nobre

Data: 3 de dezembro de 2010

Local: salão nobre da Câmara Municipal de Senhor do Bonfim

Horário: 19h30

Publicado Por: Cleber Vieira DRT-Ba.1.98

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

DISCURSO DO PRESIDENTE DA ACLASB POR OCASIÃO DA SESSÃO SOLENE EM COMEMORAÇÃO AO DIA DA CULTURA BONFINENSE - DEZEMBRO DE 2010



Senhores e senhoras,

A todos vocês as nossas boas vindas e a nossa acolhida calorosa. Obrigado imensamente por suas honrosas presenças!

É com redobrada satisfação que a Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim (ACLASB) se reúne mais uma vez para comemorar a semana da cultura bonfinense, cujo ápice é o dia 5 de dezembro, data em que se evoca a passagem por esta terra do então senador baiano Rui Barbosa, expressão suprema da inteligência brasileira.

Como parte desta solenidade, teremos, dentro em pouco, o ingresso na Academia de quatro intelectuais bonfinenses. São eles: o fotógrafo e cineasta Nivaldo Oliveira Souza; o poeta Edivan Ferreira Cajuy, o colunista Jacson Roberto Santana, e o poeta e compositor José Antônio Ferreira da Silva (Durá), este natural da comunidade centenária do Cazumba I e representante legítimo da agricultura familiar.

Nossos cumprimentos cordiais aos neo-acadêmicos, com a certeza de que os seus nomes haverão de engrandecer e dignificar esta Casa de Cultura.

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Reza a sabedoria oriental que, do mesmo modo como a função do arco é impulsionar a flecha em direção ao alvo, o papel da cultura é conduzir o ser humano rumo à felicidade, à auto-estima, à realização. Desta forma, quanto mais intensa for a nossa interação com o universo cultural, maiores serão os resultados em termos de bem-estar e qualidade de vida. Deste aviso é também o poeta e crítico anglo-americano Thomas Stearns Eliot, quando afirma que a cultura “é aquilo que torna a vida digna de ser vivida”.

Do verbo latino Colere cultura significa, originalmente, cultivo, cuidado. Nos primórdios era o cultivo e o cuidado para com a terra, daí agricultura; para com as crianças, donde puericultura; ou para com a divindade, de onde advém a palavra culto.

Com o passar do tempo, o termo foi ganhando novos significados. No Iluminismo, por exemplo, ele se torna sinônimo de civilização. Desta maneira, a cultura passa a ser vista como conjunto de práticas, incluindo a arte, a ciência, a filosofia, as técnicas, etc, que permitem avaliar o grau de progresso e evolução dos povos e sociedades.

Mais recentemente, com o apogeu da filosofia alemã, ela passa a ser defendida e elaborada como a diferença entre natureza e história. Deste ponto de vista, a cultura é o rompimento da adesão à ordem natural – adesão própria aos animais – e a inauguração do mundo humano propriamente dito. A ordem natural é a da causalidade necessária, em vista do equilíbrio do todo. Já a ordem humana é a ordem simbólica, ou seja, a da capacidade do ser humano de se relacionar por meio da linguagem e do trabalho.

Com isso a palavra ganha uma abrangência maior e a cultura passa a ser entendida, nas palavras de Marilena Chauí, “como produção e criação da linguagem, da religião, da sexualidade, dos instrumentos e da forma do trabalho, dos modos da habitação, do vestuário e da culinária, das expressões de lazer, da música, da dança, dos sistemas de relações sociais (...), da noção de vida e morte”. É “o campo – continua a filósofa paulista – em que os sujeitos humanos elaboram símbolos e signos, instituem as práticas e os valores, definem para si próprios o possível e o impossível, a direção da linha do tempo (passado, presente e futuro), as diferenças no interior do espaço (a percepção do próximo e do distante, do grande e do pequeno, do visível e do invisível), os valores – o verdadeiro e o falso, o belo e o feio, o justo e o injusto – que instauram a ideia de lei e, portanto, do permitido e do proibido, determinando o sentido da vida e da morte e das relações entre o sagrado e o profano”.

Henrique Dussel, filósofo argentino e um dos papas da chamada Filosofia da Libertação, defende a cultura como “conjunto orgânico de comportamentos pré-determinados, cujo conteúdo teleológico se constitui a partir dos valores e símbolos dos grupos, ou em estilos de vida que se manifestam em obras de cultura e que transformam o ambiente físico animal em um mundo humano, um mundo cultural”.

A cultura, de fato, representa uma das dimensões essenciais da existência humana e, como tal, encontra-se na base da nossa identidade individual e coletiva. Sociedade alguma jamais conseguirá se consolidar como tal sem um lastro cultural que possa garantir a sua auto-identificação. Deste modo, nenhum povo, nenhuma tribo, nenhum grupo humano... pode ser desprovido de cultura.

Contudo, longe de se constituir um bloco monolítico, estático, a cultura se apresenta em cada realidade de forma peculiar e diferenciada. Por isso, é preferível falar aqui de cultura no plural. É nesta perspectiva que falamos de cultura popular, enquanto conjunto de manifestações simbólicas produzidas e consumidas por um mesmo grupo social.

Com admirável sabedoria, pontifica Frei Hermínio de Oliveira, em estudo voltado para a cultura popular no nordeste brasileiro: “Arraigada no dia-a-dia da vida do povo, a cultura popular não pode ser imaginada a partir de uma teoria “a priori”, mas deve ser descoberta através da observação das manifestações populares. Seu traçado fundamental é, portanto, o seu enraizamento nos costumes de cada um. A linguagem popular nos dá uma idéia aproximada da cultura de um povo, de seus valores e da sua maneira de ver a vida”.

A cultura dita canônica ou erudita é igual em qualquer parte do mundo, pelo menos nos seus traços fundamentais. Ao passo que a cultura popular se assenta na singularidade. Ela jamais se repete. Cada grupo humano possui a sua. E é através dela que estes mesmos grupos se caracterizam, se identificam, se distinguem, se comunicam, se põem e se impõem, enquanto sujeitos sociais e políticos. É justamente aí, que reside o valor, a grandeza e a força da cultura dita popular.

Foi com essa perspectiva que o romantismo germânico foi buscar na cultura popular a base para a construção da tradição cultural alemã. Por demais conhecido é o esforço de pensadores como Herder e os irmãos Grimm, no tocante ao resgate e à preservação das tradições populares, principalmente aquelas relacionadas ao meio rural. São frutos desse trabalho, por exemplo, clássicos da literatura infantil como Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Branca de Neve, entre outros. Nenhuma outra tradição nacional foi formada com tanta ênfase no tema da tradição popular como a da nação alemã.

Mais ou menos próximo a essa época obras de relevo da literatura universal foram construídas a partir de elementos colhidos entre as tradições populares. O próprio Shakespeare teria bebido nessa fonte. Obras como Hamlet e Macbeth, entre outras, foram inspiradas na cultura popular do medievo inglês. O mesmo poder-se-ia dizer de um Fausto goethiano no caso da Alemanha, ou de um Dom Quixote no mundo espanhol, este último, por seu turno, fonte inspiradora de trabalhos monumentais, como o Auto da Compadecida, de Ariano Sussuana, para citar um exemplo apenas.

Na transição do século XIX para o século XX, o engenheiro e escritor Euclides da Cunha asseverava, em sua obra magna, Os Sertões, ser o interior do país e não o centro civilizado, o cerne da nacionalidade brasileira. Foi com base nesse princípio que ele penetrou o chamado “Brasil profundo”, despertando a atenção das elites políticas, econômicas e culturais para os inumeráveis problemas que faziam deste, um país dividido entre o progresso do litoral e o atraso do interior. Na mesma época e na mesma esteira de pensamento, estão escritores como Melo Morais Filho, Afonso Arinos de Melo Franco, Sílvio Romero e Araripe Júnior. Todos comprometidos com uma produção intelectual voltada para a valorização das coisas do universo interiorano. Mais tarde, será Guimarães Rosa a penetrar os sertões das Minas Gerais em busca do substrato cultural das populações campesinas – a matéria prima que deu alma, vida e forma às suas criações literárias. Em época mais recente, Luis da Câmara Cascudo viria a consolidar, de uma vez por todas, os estudos acerca do folclore, das tradições, e das culturas populares brasileiras, deixando, nesta área, um dos maiores registros de que se tem conhecimento.

A cultura popular, todavia, vem sendo paulatinamente substituída pela chamada cultura de massa que diuturnamente é veiculada através dos grandes veículos midiáticos, principalmente a televisão. Voltados apenas para os interesses do grande capital, tais veículos, além de não demonstrarem o menor apreço para com as formas de cultura oriundas do povo, vêm trabalhando sistematicamente no sentido de esvaziá-las ou mesmo suplantá-las. O objetivo é muito claro: privar o povo do seu cabedal cultural, para depois cooptá-lo à propaganda mercantilista.

Na região Norte/Nordeste do Estado da Bahia o quadro não é diferente. Conforme observa o professor José Plínio de Oliveira, da Universidade do Estado da Bahia - UNEB, “Muitas das manifestações culturais de domínio popular (...) acham-se agora ameaçadas de extinção. Há um vácuo que está sendo alargado pela circulação intensa da indústria cultural em detrimento das culturas de raízes populares nestes espaços sertanejos”. O que vem provocando, segundo a observação do acadêmico, uma verdadeira “desertificação nostálgica”.

Senhor do Bonfim, infelizmente, não está longe dessa problemática. Se algumas de suas manifestações têm conseguido sobreviver é porque para isso tem se despendido muito esforço e muita dedicação. Exemplo disso são o Samba de Lata de Tijuaçu, e o Terno de Reis das localidades de Umburana, Baraúna, Passagem Velha e Cazumba I. Isso é uma comprovação de que sem esforço, sem investimento e sem vontade política a cultura popular, estará fadada ao fracasso.

Urge, portanto, que se implemente uma política voltada para a preservação e revitalização das manifestações ligadas à cultura popular. Neste sentido, propomos o que segue: 1) levantamento de todas as formas de cultura existentes no município; 2) elaboração de um plano municipal de cultura que contemple todas as modalidades de manifestação cultural; 3) acompanhamento e monitoramento de todas as manifestações culturais através de capacitações, seminários e oficinas; 4) divulgação das manifestações culturais através de amostras, folders, e meios de comunicação diversos; 5) além da inserção do tema no currículo escolar, como já ocorre em muitos municípios brasileiros.

Desta forma, estaremos dando um grande passo na construção da plena cidadania, uma vez que cidadania passa também pelo respeito que é devotado à memória, à tradição, à cultura... E não esqueçamos nunca de que o nível de civilidade de um povo está sempre vinculado à forma como este mesmo povo lida com seu patrimônio cultural.

Dezembro de 2010

José Gonçalves do Nascimento

sábado, 25 de setembro de 2010

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2000 - ECUMÊNICA



No Brasil, de 1964 para cá, a cada ano, sempre durante a quaresma, a igreja tem realizado a chamada Campanha da Fraternidade. Esse gesto tem feito com que a sociedade olhe mais de perto e com maior seriedade para aqueles problemas que tanto a afligem.

A Campanha da Fraternidade procura encarar a problemática social a partir da fé no Cristo crucificado e ressuscitado e, à luz dessa mesma fé, esforça-se por apresentar as devidas soluções.

Como vemos, o seu objetivo não é resolver os problemas da sociedade, mas despertar a nossa consciência, na qualidade de cristãos e cidadãos que somos, a fim de que nos interessemos pela realidade que está ao nosso redor e dela tomemos parte, procurando transformá-la.

Neste ano do Jubileu do nosso Salvador, a Campanha da Fraternidade ganhará um caráter ecumênico. Isto significa que ela não será obra apenas da Igreja Católica, mas fruto do diálogo e do esforço comum de outras igrejas cristãs.

Trata-se, então, do trabalho conjunto de homens e mulheres que, movidos pela mesma fé, descobrem que apesar das diferenças, existe algo muito maior que nos une: o ideal cristão.

A Campanha da Fraternidade 2000-ecumênica traz como tema Dignidade Humana e Paz e como lema Novo Milênio sem exclusões.

À diferença dos anos anteriores, em que cada campanha abordava uma única questão social, a Campanha da Fraternidade deste ano resolveu lançar seu olhar sobre toda a grande problemática que envolve a sociedade brasileira.

O texto-base, que serve de subsídio para os agentes de pastoral, apresenta o conteúdo da campanha em três momentos diferentes: o primeiro trata da dignidade ferida nos porões da vida. Aqui são abordadas aquelas situações-limites de que a própria sociedade se envergonha e se escandaliza. Por exemplo, o tráfico de crianças, o trabalho escravo, a prostituição, etc. No segundo momento, o texto fala da dignidade ferida à luz do sol. Aí se trata das situações com as quais a sociedade convive naturalmente sem chegar a escandalizar-se. É o caso do desrespeito à dignidade do índio, do negro, e da mulher. Por último o texto enfatiza os bastidores, ou seja, o porquê de tudo isso. E termina convidando a todos para a promoção da dignidade humana e da paz.

Nos 2000 anos do nascimento do nosso Mestre e Senhor e dos 500 anos de história do nosso país, nada mais justo do que realmente unir nossas forças e, irmanados em torno do único Evangelho de Jesus Cristo, procurar construir uma sociedade nova onde de fato reinem o amor, a justiça, a dignidade e a paz.



Pe. José Gonçalves

Casas Populares

Senhor do Bonfim – Bahia

Nota: publicado, originalmente, no jornal “A Voz da Tapera”, Senhor do Bonfim – Bahia - abril de 2000.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

40 ANOS DE SACERDÓCIO

Sua poesia encanta e liberta. É como o pão que alimenta e a água que mata a sede. Semelhante ao oásis que, apesar da inclemência do deserto, não perde a vitalidade.

Sua poesia canta a terra, canta a justiça, canta a vida... É anúncio, é denuncia... Grito sublime a ecoar nos céus do sertão.

O poeta é também pastor, ou o pastor é também poeta. Ou melhor, um é o outro. Pois o coração é único e o amor que conduz o poeta e o pastor faz com que a poesia e o pastoreio sejam vividos na mesma intensidade de forma conciliada.

Quarenta anos de consagração. O poeta e pastor faz-se dom de si mesmo na caridade pastoral. Quarenta anos de entrega a Deus e ao outro. Vinte anos de padre, 20 anos de bispo. O fruto do seu pastoreio e da sua poesia é visto, é sentido..., é saboreado: a santificação das ovelhas lhes entregues.

Seu ideal é o Reino, projeto do Pai assumido pelo Filho e, por meio deste, confiado aos de boa vontade. No Reino dar-se-á a concretização da verdadeira poesia.

Paróquia de santo Antônio de Jesus; Paróquia de Jequié. Lá estão plantadas as sementes da sua poesia; lá, o seu testemunho de servo perpassa o tempo e a história.

Diocese de Bonfim. Esta desfruta do privilégio de tê-lo como pastor. De ouvir de perto o mavioso cantar do filho de Castro Alves.

Salve Dom Jairo, nestes 40 anos de sacerdócio.

Que o Deus da vida continue a guiar os seus passos de pastor e poeta.

Por José Gonçalves

Seminário Nossa Senhora do Bom Conselho – Ilhéus – Bahia

Nota: publicado, originalmente, no jornal A Tarde, de Salvador, em 08 de dezembro de 1994.

20 ANOS DE PASTOREIO

A Diocese de Bonfim está celebrando 20 anos de caminhada, ao lado do seu quinto pastor, D. Jairo Ruy Matos da Silva.

Este momento marca profundamente a história da igreja de Bonfim e revigora a fé de um povo que muito ama o seu pastor.

Amigo, irmão, bispo e pastor, D. Jairo, ao longo desses anos, sem medir esforços na sua prática pastoral e entregue inteiramente à causa do Reino de Deus, tem levado o Evangelho a todos os recantos da diocese. O fruto do seu trabalho é testemunhado pelas comunidades eclesiais de base, pelos grupos de catequese, pelas pastorais sociais e pelo despertar das vocações cristãs, especialmente as religiosas e sacerdotais.

Quero, com meus colegas seminaristas, unir-me à minha diocese e ao meu bispo para que juntos louvemos a Deus por tão maravilhosa dádiva. Que o Deus de Jesus continue a guiar os passos de D. Jairo e da Diocese de Bonfim.

Jose Gonçalves

Seminário N. S. do Bom Conselho, Ilhéus-BA

Nota: publicado, originalmente, no jornal A Tarde, de Salvador, em 08 de junho de 1994.

PREFÁCIO AO LIVRO "PÁGINAS BONFINENSES" DE PAULO BATISTA MACHADO

À GUISA DE PREFÁCIO

Procurai que, quando ler o vosso livro, o melancólico se alegre e solte uma risada, que o risonho quase endoideça de prazer, o simples se não enfade, o discreto se admire da vossa intenção, o grave a não despreze, nem o prudente deixe de gabá-la.

Miguel de Cervantes Saavedra

Este é mais um trabalho da lavra do professor Paulo Batista Machado. Páginas Bonfinenses é uma coletânea composta de 20 crônicas que versam sobre pessoas e fatos da história de Senhor do Bonfim. Misto de prosa e poesia, de realismo e ficção, a obra que ora vem a lume, é mais uma prova da versatilidade literária do já celebrado escritor grapiúno-bonfinense.

Obedecendo ordem temática e não cronológica, os textos contidos em Páginas Bonfinenses apresentam três eixos temáticos. No primeiro, desfilam as grandes mulheres: Oriana Carvalho, professora e poetisa, de quem o autor guarda as melhores recordações; Pró Zenaura Campos, a eterna e inesquecível mestra do Campo do Gado; dona Alayde Sena Gomes, a abnegada diretora da Pia União das Filhas de Maria, entre outras.

O segundo eixo é o dos grandes homens. Aí estão, além de outros, Dom Antônio Mendonça Monteiro, o dinâmico e virtuoso prelado que governou a Igreja de Bonfim entre os anos de 1957 e 1972; Dom Jairo Ruy Matos da Silva, o bispo poeta que implantou na Diocese as Comunidades Eclesiais de Base; Jonas Costa, o prefeito ingênuo e sonhador que não se cansava de repetir: “Machado, o povo precisa de mim”. Sem esquecer, é claro, do velho e bom Lamartine Lima, o “umbuzeiro do sertão”, na expressão laudatória do seo Oldon Machado, pai do nosso cronista.

No terceiro eixo, após duas belíssimas e bem humoradas crônicas, tendo como protagonistas uma, a copa do mundo, a outra, a suposta presença do temeroso chefe da Al Qaeda em nossa cidade, Machado se atém sobre fatos do cotidiano de Senhor do Bonfim. São registrados, assim, o triste fim do BANEB, o malfadado Banco do Estado da Bahia; os dez anos do Programa Cidade Aberta, do nosso Eloilto Cajuy, “o dono das tardes bonfinenses” e o apelo que o autor, como homem de fé, dirige aos superiores redentoristas, pedindo a permanência daquela congregação na paróquia-mãe da nossa Diocese.

Fruto da pena prodigiosa de Paulo Batista Machado, os textos encerrados em Páginas Bonfinenses, encantam por sua leveza e literariedade absoluta. É impossível iniciar a leitura de qualquer um deles e não se ir até o final. Ao percorrer as páginas que se seguem o leitor, com certeza, deparar-se-á com um subsídio de raro valor histórico e elevada beleza literária.

José Gonçalves do Nascimento

(Presidente da Academia de Ciências, Artes e Letras de Senhor do Bonfim - ACLASB)

domingo, 22 de agosto de 2010

UM CERTO CAJUEIRO



De antigos desbravadores,

ainda sob o domínio das caatingas,

nasce um certo Cajueiro,

marco de uma história promissora.

Nutrido pela seiva prodigiosa da terra sertaneja,

aquele pioneiro assentou raízes,

floresceu, frutificou;

estendeu seus galhos

e se transformou num grande povo.

E esse povo cresceu, progrediu, fortaleceu-se...

e ganhou uma identidade.

E o Cajueiro, embora vivo,

virou Nordestina;

e Nordestina se tornou um oásis em meio ao sertão,

desafiando a secura da terra.

Essa é a trajetória árdua,

contudo vitoriosa,

de uma gente que nasceu

sob o signo da luta constante.

Tudo começou lá atrás,

pela mão de homens e mulheres

que, com garra e determinação,

acreditaram e apostaram no futuro.

Bendita seja a memória

desses heróis e heroínas,

eternos cajueiros,

cujas raízes continuam aqui fincadas,

tornando esta terra

sempre mais fértil e sempre mais forte.

Fértil, forte e próspera...

eis a marca indelével

de quem nasceu prá ser grande;

grande na hospitalidade;

grande na bravura;

grande na solidariedade...

grande na vontade de querer Ser,

de querer fazer...

de querer acontecer...

acontecer a beleza de ser um grande povo.

Isso é ser Cajueiro:

brotar, crescer, florir, dar fruto,

estender galhos e virar gente,

gente grande.

Isso é ser Nordestina!!!

José Gonçalves do Nascimento



A ESSÊNCIA DO HOMEM


A essência do homem
está na forma
como ele se relaciona
com os seus semelhantes
e a amizade,
sem soma de dúvidas,
é a expressão de maior grandeza
que um ser humano pode demonstrar.

José Gonçalves

terça-feira, 17 de agosto de 2010

180 ANOS DE ANTÔNIO CONSELHEIRO


Antônio Vicente Mendes Maciel, conhecido também como Antônio Conselheiro, Santo Antônio Aparecido ou Bom Jesus Conselheiro, nasceu aos 13 de março de 1830, no termo de Quixeramobim, na antiga província do Ceará.


Filho de Vicente Mendes Maciel e Maria Joaquina de Jesus, Antônio fica órfão de mãe aos quatro anos de idade, quando passa a conviver sob os maus tratos da madrasta. Mais tarde, ao perder o pai, torna-se arrimo de família, incumbindo-se da responsabilidade de cuidar de três irmãs em idade tenra.

Aos 27 anos, casa-se com uma prima, Brasilina Laurentina da Silva que, anos depois, o abandona, fugindo com um furriel da polícia do Ceará. Assume os negócios do genitor, mas não obtendo nenhum sucesso deles se desfaz, vindo a desempenhar, cada um a seu tempo, os ofícios de caixeiro viajante, construtor civil, rábula e professor.

Em seguida investe-se da missão de beato e passa a peregrinar pelos sertões nordestinos, fazendo sermões e aconselhando o povo simples que a ele recorria sequioso dos seus ensinamentos. Torna-se, como escreveu Euclides da Cunha, em Os Sertões, “o emissário das alturas, tendo uma função exclusiva: apontar aos pecadores o caminho dos céus (...) impressionando pela firmeza nunca abalada e seguindo para um objetivo fixo com finalidade irresistível”.

Homem de fé e leitor assíduo da Bíblia, Antônio Conselheiro não demorou a tomar a defesa dos pobres e oprimidos. Numa região profundamente marcada pela miséria e opressão, ele se apresentava como a grande esperança das massas injustiçadas. Começou como advogado dos pobres (rábula), antes mesmo de assumir vida ascética. Depois, ao presenciar mais de perto a situação de abandono a que foram relegadas as regiões por onde andou – abandono não só da parte do poder público como também das autoridades eclesiásticas – começa a empreender esforços em torno de construções básicas como igrejas, santuários, cemitérios e aguadas.
Espalhadas por alguns estados do Nordeste, muitas dessas construções continuam de pé como que a testemunhar, de forma palpável, uma das maiores e mais belas experiências de vida comunitária de que se tem conhecimento.


Em Canudos, depois de um longo período de 20 anos de peregrinação, ei-lo a questionar, de forma mais contundente, as estruturas de poder que há séculos submetiam o Nordeste ao jugo pesado do atraso, da miséria e da opressão. E assim, numa perspectiva mais efetivamente transformadora, passa ele a defender também questões de ordem estrutural como o direito à terra, ao pão e à liberdade.

Isso comprova que Antônio Conselheiro era um homem extremamente solidário, generoso e bom. Sobejam testemunhos a este respeito. Um morador de Santa Luzia (atual município de Santa Luz, Bahia) em carta publicada no Jornal de Notícias de Salvador, em 10 de junho de 1893, no mesmo mês e ano da fundação de Canudos, descrevia o peregrino como “um homem em extremo humanitário – todo abnegação, todo altruísmo”. Manuel Ciríaco o tinha como um “homem bom e respeitador”; Pedrão, como alguém que “só pregava o bem, só fazia o bem”. Estes e outros testemunhos, de igual natureza, são corroborados pelo eminente escritor cearense Abelardo Montenegro, em ensaio de sua lavra intitulado Antônio Conselheiro: “Antônio revelava-se muito religioso, morigerado e bom, respeitoso para com os velhos. Protegia e acariciava as crianças. Sofria com as rusgas entre o pai e a madrasta. Consideravam-no a pérola de Quixeramobim, por ser um moço sério, trabalhador, honesto e religioso”.

Sintonizado com os anseios das massas sertanejas e ciente de sua missão enquanto portador da palavra libertadora de Deus, ele não mediu esforços no combate aos principais males que naquele momento punham em risco a sobrevivência das classes menos favorecidas. Entre estes males figuravam o trabalho escravo, a arrecadação de impostos e o regime republicano. Com a mesma força e determinação combateu o furto, a violência, o adultério, a prática da prostituição, o alcoolismo e toda sorte de vícios.

Na sua prática diária procurou pautar-se, fundamentalmente, naqueles valores que sempre nortearam a vida do povo sertanejo, como a prática da caridade, do perdão, do amor ao próximo, além de fomentar relações solidárias no trabalho, nos negócios e na convivência cotidiana.
Totalmente desprendido dos bens materiais alimentava-se com frequência das esmolas que lhe ofereciam. Nas peregrinações pelas terras calcinadas do Nordeste, andava quase sempre a pé. O seu dia-a-dia era voltado para o trabalho, o aconselhamento e a meditação.


Foi nessas andanças pelas searas sertanejas, que ele chegou às margens do Vaza-Barris, importante rio do semi-árido baiano, onde estabeleceu o arraial místico de Canudos. Nascia, ali, um modelo novo de sociedade, livre do fardo pesado do latifúndio e calcado nos valores da fé, da partilha e da solidariedade. Canudos surgia como o primeiro passo para a libertação total, quando todos viveriam livres de qualquer jugo ou dominação.

Esse sonho, levou o peregrino até as últimas consequências, resultando na guerra que maculou a Bahia e o Brasil.


José Gonçalves do Nascimento

Presidente da Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim